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SAY HELLO TO MY BOOKS

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31
Jan17

Diário de Anne Frank, Anne Frank

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Tenho tanto para dizer sobre este livro mas, por outro lado, sinto que nada do que possa dizer é suficiente para descrever tudo o que me fez sentir. Várias vezes durante a leitura, especialmente quando Anne reforçava a esperança e planos que tinha para o futuro, quando a guerra acabasse, fechava os olhos uns instantes e sofria, por saber que esse futuro nunca lhe chegou. O leitor sabe, desde o início, como termina a história. E, por essa razão, toda a leitura tem um gosto amargo. 

 

Li-o a primeira vez com 14 anos. Reli-o agora, com 29, na mesma edição, mas com outros olhos, outra maturidade e outra emoção. Se da primeira vez tentava imaginar o que seria uma adolescente, como eu, viver escondida, isolada e privada da liberdade e dos amigos, enquanto está em constante crescimento e formação, hoje não consigo sequer imaginar o que terão sido aqueles dois anos para ela e todos os que ali viviam. A angústia constante, a incerteza, a fome que nunca é satisfeita e a falta de coisas tão simples como, tomar um banho como deve ser, beber café ou sentir a brisa no rosto. 

 

Acho que todos conhecem a história de Anne e da sua família, judeus de nacionalidade alemã que viviam há vários anos na Holanda. Com o cerco nazi a apertar, escondem-se para evitar a ida para os campos de concentração. Criam artimanhas para que se pense que fugiram para a Suíça e “mergulham” no anexo da empresa onde Otto Frank, pai de Anne, trabalhara, com mais quatro pessoas. Enquanto o escritório tivesse a funcionar durante o dia, não podiam fazer barulho, não podiam usar a casa de banho, ligar a água, falar alto, nada. Alguns dos colegas de Otto tornam-se aliados e protetores deste segredo, levando-lhes comida, livros, roupa, entre outras coisas. Em baixo, os oito moradores do anexo, e na última linha, os quatro protectores. 

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Anne recebe o diário em Junho de 1942, no 13º aniversário, ainda em liberdade. Percebemos que era uma miúda “saída da casca”, extrovertida, sociável, vaidosa, curiosa e desafiadora. Por isso, quando se vê presa, toda essa energia e sede de mundo transformam-se em frustração, momentos de depressão misturados com euforia e uma grande dose de contradição, comum a qualquer adolescente. O problema é que está num espaço limitado com mais sete pessoas com as quais não se identifica. O pai, que adora, a irmã, muito diferente dela, a mãe, com quem tem problemas, o casal “van Dann” (nomes que inventou para proteger a identidade deles) e o filho Peter, uns chatos, e ainda o dentista a quem chama Dussel, com quem divide o quarto e com quem tem variadas discussões. Isso traz-lhe uma grande solidão. Dá respostas tortas aos adultos, é chamada de malcriada, preguiçosa, insolente. Numa idade crucial de formação de personalidade, mentalidade e carácter, Anne está condicionada a nível físico, social e mental. E nós acompanhamos esses conflitos e esse crescimento doloroso. Ainda assim, nunca perde o sentido de humor e somos testemunhas disso em várias passagens do diário. 

 

“Combinámos não abrir as torneiras e não puxar o autoclismo no WC.

Mas como o susto provocou o mesmo efeito em todos nós, podes imaginar o cheirete num certo sitio..."

 

É por se sentir sozinha e incompreendida que o diário ganha uma importância vital, funcionando como uma terapia durante aquele tempo. Dá-lhe o nome de Kitty e escreve como se estivesse a contar o dia-a-dia, as coisas mais simples como as rotinas de almoço e jantar, ou assuntos mais sérios como os avanços da guerra, a uma amiga que mora longe. 

 

"Não tenho uma verdadeira amiga, pois ninguém pode compreender que uma rapariga de treze anos

se sinta só. (...) Não consigo abrir-me, sinto-me como que abotoada. Por tudo isto é que escrevo um diário.

Este diário há-de ser a minha amiga".

  

"Mais tarde, nem eu nem ninguém, achará interesse nos desabafos de uma rapariga de treze anos.

Mas não importa. Apetece-me escrever e quero aliviar o meu coração de todos os pesos".

 

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Anne nunca deixou de estudar. Geografia, Álgebra, História e Línguas. Adorava ver e recortar revistas de cinema. Lia muito e escreveu, além do diário, vários contos naqueles anos.

 

"As pessoas que estão em liberdade e que fazem uma vida normal, não podem calcular

o que significam os livros para gente isolada do mundo exterior".

 

Tinha uma mente avançada para a época, não queria viver só para o marido. Queria viajar, estudar no estrangeiro, ser jornalista e depois escritora. Era culta, interessada e com reflexões profundas sobre o mundo, a alma humana e sobre si própria. Por vezes, senti-me até um pouco culpada por entrar de forma tão intensa no íntimo de uma miúda de 15 anos. Mas em muitos posts conta-nos acontecimentos banais do dia-a-dia. Narra-os como se de histórias literárias se tratassem, com diálogos e pormenores interessantes. O armazém, que ficava em baixo do anexo, foi assaltado diversas vezes naqueles anos. Anne conta esses acontecimentos como se tivesse a escrever ficção. Lia muito, portanto tem uma sensibilidade narrativa grande. Sabe criar picos de tensão e dar peso dramático nos momentos certos. 

 

Anne ensina-nos a manter a sanidade mental, vivendo numa angústia constante. Ensina-nos a encontrar escapes e a manter o bom humor, não deixando que o medo nos consuma. Uma das características de Anne que mais me impressionou, foi a fé inabalável de que tudo ia acabar bem. Nunca perdeu a esperança, sempre acreditou que o fim da guerra ia chegar e que voltariam à vida normal. 

 

"Muitas roupas nossas estão nas casas de outras pessoas, mas só depois da guerra poderemos ir buscá-las".

“A Margot diz que eu talvez já possa voltar à escola em Setembro ou Outubro”.

"Podemos pensar nos vestidos e livros que havemos de comprar."

“O meu desejo é neutralizar-me holandesa depois da guerra”.

 

As várias versões do Diário e a polémica sobre a fraude

Anne fez vários planos para o pós-guerra. Um deles era publicar o seu diário. Assim que ouvi na rádio, em 1944, o governo holandês sugerir que quem tinha diários e escritos sobre aquele período os conservasse pois podiam teriam interesse em ser publicados no futuro, Anne começou a editar o seu próprio diário. Voltou ao início e começou a cortar certas partes e a acrescentar outras. Essa é a versão B. Mais tarde, quando Otto teve acesso ao diário (já depois da guerra, a amiga da familía Miep que o encontrou, devolveu-o ao pai), decidiu publicá-lo, fazendo uma edição minuciosa e omitindo algumas partes que considerava mais privadas, como passagens onde Anne falava da sua sexualidade, por exemplo. Essa é a versão C e a que chega à maior parte das pessoas. Sabe-se também que várias entradas do diário se perderam, principalmente de 1943. Talvez por isso, ou pela maior necessitado de desabafar no último ano, quando já estava saturada daquele local e tinha as ideias mais no sítio, é visível a diferença de número de postagens. Anne escreveu 54 entradas no primeiro ano em que esteve fechada e 110 no segundo, de Julho de 1943 a início de Agosto de 1944.  

Mas nem tudo é o que parece. Durante anos, várias foram as acusações feitas de que teria sido Otto a escrever o diário. Chegou mesmo a ser acusado e ir a julgamento. Diz-se que pegou em alguns apontamentos escritos pela filha e acrescentou muita informação, fabricando o diário na sua maioria. Se pararmos para pensar, não é de todo impossível. Há várias teorias espalhadas pela Internet. Leiam este artigo, vale muito a pena. E se quiserem vejam também este post, como há muitos espalhados por aí. 

 

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Admitindo que foi mesmo a própria a escrevê-lo, um dos pontos mais interessantes do diário é acompanhar o amadurecimento de ideias e reflexões. Com 13 anos já mostrava uma capacidade de análise fora do comum para a idade, mas à medida que o tempo vai passando, assistimos a uma evolução de Anne, tanto que o próprio pai disse em público, mais tarde, não ter ideia da profundidade de sentimentos e pensamentos da filha. Ganha uma maturidade incrível naqueles dois anos. Não só nas reflexões sobre o Mundo e a Humanidade, como na forma de agir com quem a rodeia, na forma como consegue admitir quando erra e é injusta, no amor que ganha pela natureza e as coisas simples da vida. Anne Frank escrevia de forma eloquente, tinha vocabulário alargado, esperteza e sensibilidade para perceber a atmosfera à volta dela. Era muito autocrítica, com instropecções profundas e uma constante procura por aperfeiçoar-se e conhecer-se a si própria. Quantas miúdas de 15 anos têm esta capacidade? Claro que a o isolamento forçado a obrigou a ter uma vida menos agitada do que qualquer adolescente normal, mas ainda assim, Anne era especial. 

 

"Tenho de me aperfeiçoar sozinha, sem exemplo e sem ajuda, só assim hei-de ser um dia forte e resistente".

“Sei o que quero, tenho uma finalidade, uma opinião, tenho fé e amor. Tenho consciência de ser uma mulher com força interior e muita coragem.”

"Não podes, nem deves, considerar-me uma rapariga de catorze anos. A nossa tragédia tem-me envelhecido".

 

Vamos notando também que Anne se torna mais fria. A realidade era dura, as notícias da guerra e da perseguição aos judeus aterradoras, e tudo isso a moldou-a numa época em que ainda estaria a desenhar o seu carácter. Tem noção do bem e do mal, não é hipócrita, diz tudo o que lhe vem à cabeça, mesmo que isso magoe alguém, especialmente a mãe com quem tem uma relação agridoce. Todas as referências sobre a relação são tristes e, ao mesmo tempo, de frontalidade imensa. Anne chega a dizer que não tem sentimentos pela mãe e tem pena disso. "Sou em tudo o contrário da mãe, por isso é inevitável que nos choquemos. (...) Vejo-a apenas como minha mãe. E ela não é para mim a mãe que idealizei".

                                                                                                                  

Sabemos que não é fácil quando várias pessoas são fechadas num espaço pequeno meses e meses a fio. É de levar qualquer um à loucura. Basta vermos o que acontece nos reality shows, onde várias personalidades diferentes em pouco tempo estão a discutir pelos mais pequenos pormenores da vida quotidiana. Naquele anexo, aconteceu a mesma coisa. Não têm muitas distrações, não podem sair para espairecer, não têm novos estímulos. Ao fim de algum tempo dá molho. É assim a natureza humana. 

 

Já no último ano no anexo, Anne apaixona-se por Peter, filho do outro casal do esconderijo, que nada tem a ver com ela. A própria admite que em condições normais de liberdade, não se teria interessado por ele. É aqui que nos lembramos que é apenas uma adolescente, cujo maior medo devia ser levar uma nega do rapaz que gosta ou chumbar num exame da escola. Em vez disso, vive sob a sombra da guerra, num medo e angústia constantes.

 

"Proibimos a Margot, que anda terrivelmente constipada, de tossir de noite". 

"Qualquer pequeno desleixo podia trair-nos."

 

"Aflige-me a ideia de não se poder sair daqui e tenho medo que nos descubram e nos fuzilem".

 

Este não é apenas o diário de uma miúda. É um documento histórico sobre a perseguição aos judeus, a Segunda Guerra Mundial e o que acontece quando a deseumanidade chega ao poder. Anne relata várias vezes as privações e regras que os alemães impuseram aos judeus, como não poder sair à rua depois das 20h, não poder andar de bicicleta nem nos transportes públicos, não poder frequentar teatros e cinema nem praticar qualquer desporto, fazer compras apenas num horários específico, etc. Depois começaram a desaparecer e ouvia-se falar em câmaras de gás, mas ninguém sabia ao certo o que estava a acontecer.

 

"Não poupam ninguém: velhos, crianças, grávidas, doentes...todos têm de entrar na dança da morte.

E nós aqui tão bem guardados. (...) Quando estou deitada na minha cama, tão quente e confortável,

enquanto as minhas amigas sofrem lá fora, talvez expostas ao vento e à chuva, mortas até, sinto-me quase má. (...) ao lembrar-me de que estão entregues aos mais cruéis carrascos que a historia dos homens ja conheceu.

E tudo isto só por serem judeus!". 

 

"E lembrar-me que também já fui alemã! Hitler tirou-nos a nacionalidade há muito! Entre aquela espécie de alemães - os hitlerianos - e os judeus, existe uma inimizade como não pode haver mais forte em todo o mundo." 

 

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Anne tornou-se a voz de todos aqueles que não tiveram tempo de dizer o que pensavam, o que sentiam, que foram levados e mortos sem poder deixar nenhum testemunho.

 

A última entrada do diário, a 1 de Agosto de 1944, três dias antes de serem capturados, Anne escreve algumas das passagens mais pessoais de todo o livro: “Não tenho só uma alma, mas sim duas. Uma dá-me a minha alegria, exuberante, a minha vontade de viver. Esta primeira alma está sempre à espreita e faz tudo para suplantar a outra que é mais bela, mais pura, mais profunda. Essa alma boa da Anne ninguém a conhece. E é por isso que pouca gente gosta de mim. (…) No meu interior, a Anne pura é que me indica o caminho”.

 

 "Goza a tua liberdade enquanto for possível", disse Otto Frank a Anne, em Julho de 1942, antes de terem que se esconder. Eu nasci em liberdade, num país livre sem guerras, nem ditadura. Não sei o que é sentir preconceito e censura na pele. Tenho uma vida privilegiada. Posso sair de casa e passear onde quiser, receber o sol no rosto, a brisa, a chuva. Posso viajar, ir ao cinema, à praia e ao campo. Posso comer o que me apetecer, ler os livros que quiser, tomar banho com privacidade e dormir em paz. Às vezes esquecemo-nos a importância que a liberdade tem. Não a posso tomar como garantida, não sei o dia de amanhã.

 

Anne morreu no início de 1945, no campo de concentração de Bergen-Belsen, poucas semanas antes de ser libertado pelos aliados. Ela e Margot morreram doentes, com tifo, a pensar que os pais tinham também morrido. Relatos de pessoas que sobreviveram e lidaram com ela nos campos, dizem que tinha perdido a vontade de vida. Custa-nos imaginá-la assim, depois de ler o diário. 

 

O destino da Anne Frank faz parte da Historia. Ela ensinou-nos que a vida vale a pena ser vivida, todos os dias. “Não quero ficar insignificante. Quero conquistar o meu lugar no Mundo e trabalhar para a Humanidade”. Ela queria ser lembrada e continuar a viver para além da sua morte. Conseguiste, querida Anne.

 

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Têm todas as imagens, biografias e informação sobre todas as pessoas envolvidas na história, o que lhes aconteceu e pormenores muito interessantes no site oficial: http://www.annefrank.org/pt/ . É um complemento que vale a pena explorar. 

Título: Diário de Anne Frank

Autor: Anne Frank

Edição: Livros do Brasil, 2001

Ano de publicação: 1947

 Nº páginas: 350

29
Jan17

Se isto é um homem, Primo Levi

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"...já apagados nas almas antes da morte anónima." 

 

Já li várias opiniões de quem adora este livro e de quem, dentro das obras sobre o Holocausto, não o tem nos preferidos. Percebo porquê. É um livro mais factual, menos emotivo. Primo Levi em nenhum momento deixa de ser objectivo nos factos que nos conta dos meses que viveu em Auschwitz. Não recorre ao drama, a lamentações ou queixumes. Limita-se a contar, de forma nua e crua, como era o dia-a-dia no "Lager", para quem teve a "felicidade" de não ser seleccionado para as câmaras de gás. 

 

"Toquei o fundo. (...) Passados quinze dias da chegada, já sofro da fome regulamentar,

a fome crónica desconhecida dos homens livres (...), o meu próprio corpo já não me pertence:

tenho o ventre inchado e os membros emagrecidos, o rosto inchado de manhã e encovado à noite;

quando ficamos sem nos ver por três ou quatro dias, temos dificuldade em reconhecer-nos". 

 

Gostei muito. Já conhecia alguns factos, outros foram uma descoberta. Não posso deixar de dizer que o meu capítulo preferido é o último, "História de dez dias". Dentro de todo o horror, foi o que mais me impressionou. A resiliência de um grupo de prisioneiros, doentes, fracos, para sobreviver durante mais de uma semana, quando o campo já tinha sido deixado ao abandono pelos alemães, já não havia qualquer tipo de ordem e as condições eram ainda piores do que quando as SS estavam ao comando. É impressionante a força de vontade e o companheirismo que os fez não ficar de braços cruzados à espera da morte, deixando-se subumbir à fome e ao frio. Enquanto lia estas últimas vinte páginas, só me vinha à memória o estado de calamidade da cidade que Saramago descreve no "Ensaio sobre a cegueira". Mas isso era ficção. 

 

"O Lager, acabado de morrer, apresentava-se em decomposição. Já não havia água nem electricidade, janelas e portas escancaradas batiam ao vento, as cinzas do incêndio voavam alto e para longe. Ao efeito das bombas juntava-se o efeito dos homens: esfarrapados, caídos, esqueléticos (...) já incapazes de dominar as suas vísceras, sujaram por todo o lado, poluindo a preciosa neve, única fonte de água agora". 

 

Naquele lugar, os homens deixavam de se sentir homens. Já nada têm dentro deles, a não ser um vazio imenso, olhos inexpressivos, indiferença sobre viver ou morrer, sem cabelo, sem roupa, sem privacidade, sem voz. Sem direito a uma refeição digna, a cuidados médicos decentes, ou mesmo a respostas às mais simples questões. São objetos descartáveis quando deixam de ter utilidade. Os nazis conseguiam, com toda a violência, regras e leis dos campos, desumanizar os homens que ali entravam. 

 

Os relatos de Primo Levi, na primeira pessoa, permitem-nos entrar na rotina do "Lager". A alvorada às 4h da manhã, o trabalho escravo à chuva, à neve e ao vento, rações minímas de comida, a divisão de cama com desconhecidos, o saber roubar para sobreviver, a roupa suja, o pensamento constante de quem não sabe se estará vivo no dia seguinte. O medo do dia da selecção quando, de forma quase arbitrária, os alemães decidiam quem vivia e quem morria. 

 

"A nossa finalidade é chegar à Primavera. Neste momento, nada mais nos preocupa. (...)

Dentro de dois meses, o frio dar-nos-á tréguas e teremos um inimigo a menos."

 

"Quando chegámos erámos novente e seis, nós, os italianos do comboio 164.000;

apenas vinte e nove sobreviveram até Outubro. Destes, oito foram para a selecção.

Agora somos vinte e um e o Inverno começou há pouco tempo.

Quantos chegarão vivos ao novo ano?"

 

Primo Levi, jovem italiano de ascendência judaica e membro da resistência, foi capturado em Dezembro de 1943, com vinte e três anos. Chegou a Auschwitz em Fevereiro de 1944, onde permaneceu até Janeiro de 1945, quando o campo foi libertado. Sobreviveu. Resistiu ao frio, à fome, à fadiga e aos maus tratos. Só não conseguiu manter a alma intacta. E este "só", é tanto. Suicidou-se em 1987, com 67 anos. Elie Wiesel, autor de “A Noite” (também sobre a experiência de horrores vivida num campo de concentração nazi) e prémio Nobel da Paz em 1986, escreveu sobre ele: “Primo Levi não morreu hoje. Morreu há quarenta anos, em Auschwitz.” Podemos dizer que Primo Levi, enquanto escritor, nasceu no campo de concentração, mas como homem, "morreu" lá.

 

"A notícia não provocou dentro de mim alguma emoção directa.

Já há muitos meses que deixara de conhecer a dor, a alegria e o medo."

 

Apesar de ser um livro com menos de 200 páginas, não é uma leitura rápida. Não o foi para mim. Cada parágrafo traz informação que precisei ir digerindo. Há pormenores muito particulares que me fizeram parar a leitura para poder assimilar tudo o que o autor nos quis transmitir. Toda a opinião que aqui der será sempre incompleta sobre tanto que o livro nos traz. É um documento histórico e humano que nos deixou como um legado para que a Humanidade não volte a repetir os mesmos erros.

 

"Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que em Auscshwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem."

 

Levi respondeu à pergunta "Como é que um homem sobrevive em Auschwitz?". No final da leitura, a questão que fica é: Como é que um homem sobrevive depois de Auschwitz?

 

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Este foi o livro de Janeiro do meu projeto Volta ao Mundo em Literatura: 12 meses, 12 países, 12 livros. Começámos em Itália. Em Fevereiro viajamos até à Rússia.  

 

Título: Se isto é um homem

Autor: Primo Levi

Edição: D. Quixote, 2016

Ano de publicação: 1958

 Nº páginas: 183

27
Jan17

Dia Internacional da Lembrança do Holocausto

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Dia 27 de Janeiro é o dia Internacional da lembrança das vítimas do Holocausto. A data foi designada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2005,  por ser o dia que marca a libertação do campo de concentração de Auschwitz, em 1945, pelo Exército Soviético, há 72 anos. 

 

Todos sabemos o que aconteceu nos campos de concentração comandados pelo regime nazi. É díficil, impossível até, imaginar o sofrimento de quem passou por lá. Felizmente há quem tenha sobrevivido e conseguido contar ao mundo como era a vida(?) lá dentro. Há muitos livros, filmes e documentários sobre o tema, que contribuem para que a Humanidade nunca se esqueça que o Holocausto aconteceu, que houve um genocídio de judeus com contornos de malvadez que parecem tirados de um filme de terror. Ainda há pessoas que duvidam da veracidade das histórias, de que certas atrocidades tenham mesmo sido cometidas. Há pessoas que tentam ignorar que tudo aquilo aconteceu. E, hoje em dia, notícias como esta são preocupantes. É por isso que este é um tema que não pode morrer, tem que se continuar a falar disto, por mais anos que passem. E mais impactante do que ler um livro qualquer sobre o tema ou ver um filme, para mim, é ter acesso a documentários que mostram sem polimentos literários ou de realização, a verdade nua e crua.

 

E é por isso que hoje quero falar-vos do documentário "Night will fall" (A Noite cairá), que mostra as primeiras filmagens feitas pelos aliados, quando chegaram aos campos de concentração. Foram precisos 70 anos para essas imagens chegarem ao público. As fitas foram encontradas no Imperial War Museum, em Londres. Imagens de 1945 que os Aliados quiseram silenciar com medo de voltar a humilhar os alemães, como tinha acontecido no final da I Guerra Mundial, e que eles se quisessem vingar e voltasse tudo a acontecer. O realizador André Singer reuniu, então, as primeiras filmagens feitas pelos aliados, trabalhadas em 1945 por Sidney Bernstein em colaboração com Alfred Hitchcock. 

 

O documentário, de 2014, passou na RTP na comemoração dos 70 anos da libertação de Auschwitz, há dois anos. Vi-o nessa altura e fiquei marcada para a vida. Imagens de cadáveres empilhados em valas comuns como bonecos. Pessoas ali sem vida, ao monte, que certamente tinham filhos, tinham pais, tratadas de forma cruel e às quais nem na morte lhes foi dada um pouco de dignidade. É um murro no estômago valente. É impossível não se emocionarem com a crueldade e, infelizmente, veracidade das imagens. Tem testemunhos de sobreviventes. Tem depoimentos de antigos soldados dos aliados que contam como encontraram os campos, o cheiro que ainda havia nas câmaras de gás, o que sentiram quando se aperceberam o que se passava ali. Até àquele momento, ninguém além dos nazis, sabia bem o que acontecia nos campos de concentração. Ficaram chocados. Tem testemunhos verdadeiramente impressionantes. Alguns pormenores interessantes sobre as reacções dos soldados quando chegaram a Auschwitz estão neste artigo, do Público. 

 

Não consigo transmitir-vos o que é este documentário. Têm que ver. Toda a gente devia ver. Tem imagens muito fortes. É preciso ter estômago e aguentar o coração. É duro. Vejam, partilhem! Contribuam para que nunca se esqueça e para que nunca mais volte a acontecer. 

 

Vejam o trailer.

 

Neste mês, para marcar a data, a Dora criou o projeto #hol72, que consiste em ler livros sobre o Holocausto. Reli "O Diário de Anne Frank" e estou a terminar "Se isto é um homem", de Primo Levi. Falarei deles aqui no blog nos próximos dias. 

26
Jan17

FILMES | Manchester by the Sea

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É um dos nomeados na categoria de Melhor Filme para os Óscares deste ano. Vi-o antes de sair a lista. Sabia que era um drama valente e que o Casey Affleck andava a receber bons elogios pela prestação. Não sabia muito mais. 

 

O filme gira em torno de Lee Chandler, um homem solitário, com uma rotina casa-trabalho-casa, que nos parece viver quase de forma mecânica, sem se importar com o que se passa à sua volta. Percebemos que não é feliz, que vive num estado de depressão e apatia constantes. Até que ao dia em que recebe a notícia de que o seu irmão faleceu (não é spoiler, está em qualquer sinopse que leiam) e tem que voltar a Manchester, cidade-natal, para apoiar o sobrinho adolescente que acaba de ficar sozinho. É dura a revelação sobre o porquê Lee se ter tornado neste homem triste, frio. Mas é necessária para compreendermos a dificuldade em aceitar ficar como responsável legal do sobrinho, Patrick. É uma fórmula que já vimos em outros filmes? No geral, sim. Mas há vários pormenores neste filme que o tornam especial. O ritmo é lento, não há pressa nas cenas, o importante é passar a mensagem nos gestos, nas reacções e até nas pausas. Gostei muito disso.

 

O filme é depressivo, sempre sob um tom triste (tirando um pequeno apontamento em que mandei uma gargalhada daquelas valentes). Mal terminei tive que ir ver um episódios de Modern Family para animar o mood. Mas passa uma mensagem muito bonita sobre o amor e sacrifício familiar e o companheirismo como cura, mesmo quando achamos que o mundo já não tem nada de bom. A relação estranha, mas forte, entre tio e sobrinho é o ponto forte do filme, para mim. Um tio com uma personalidade pouco comum, e um sobrinho adolescente que mais comum não podia ser. Não quero entrar em muitos pormenores para não vos estragar a experiência de o sentirem e verem com os vossos olhos, mas vale a pena pela jornada de sobrevivência sentimental que os dois vivem e acabam por se completar. 

 

Lucas Hedges dá vida a este adolescente. Não o conhecia mas está muito bem neste papel, tanto que foi nomeado para Melhor Actor Secundário nos Óscares. Fiquei contente. Já para não falar de Casey Affleck que merece, sem dúvida, a nomeação para Melhor Actor (já tinha sido nomeado na mesma categoria para os Globos de Ouro). Não tinha uma opinião formada sobre ele, mas entrou neste papel com muita vontade de mostrar o que vale e a verdade é que quando vi uma imagem dele a sorrir numa entrega de prémios apercebi-me que não conhecia o sorriso dele. Durante todo o filme está completamente dentro da depressão de Lee Chandler. Se é a pessoa indicada para ganhar, não sei...só quando vir e poder comparar todos os outros nomeados. Agora, falando da nomeação de Michelle Williams como melhor actriz secundária...A SÉRIO? Eu não sou fã dela, mas por favor...a mulher só aparece umas três vezes durante o filme inteiro!!!

 

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IMDb: 8,4

Minha classificação: 8

24
Jan17

Nomeados Óscares 2017

Foram hoje conhecidas as nomeações para os Óscares de 2017. Tal como tenho feito nos últimos anos, vou ver todos os filmes nomeados para Melhor Filme e todos os que têm nomeações para Melhor Actor e Melhor Actriz, pelo menos. Gosto de ter a minha opinião pessoal formada sobre quem merece ganhar e sentir a emoção de ver a cerimónia conhecendo todos os filmes e todas as interpretações. Gosto de ter a informação completa, poder argumentar o porquê de achar um filme melhor que outro ou o porquê de querer que ganhe certo actor ou actriz.

 

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A noite dos Óscares está marcada para 26 de fevereiro, em Los Angeles, com apresentação de Jimmy Kimmel.

Começa hoje a jornada cinematográfica rumo aos Óscares!

 

MELHOR FILME

Arrival

Hacksaw Ridge

Hidden Figures 

Lion 

Moonlight

Fences

Hell or High Water

La La Land

Manchester by the Sea

 

MELHOR REALIZADOR 

Denis Villeneuve - Arrival

Mel Gibson - O Herói de Hacksaw Ridge

Damien Chazelle - La La Land

Kenneth Lonergan - Manchester by the Sea

Barry Jenkins - Moonlight

 

MELHOR ACTOR

Casey Affleck - Manchester by the Sea

Andrew Garfield - O Herói de Hacksaw Ridge

Ryan Gosling - La La Land

Viggo Motensen - Captain Fantastic

Denzel Washington - Fences

 

MELHOR ACTRIZ

Isabelle Huppert - Elle

Ruth Negga - Loving

Natalie Portman - Jackie

Emma Stone - La La Land

Meryl Streep - Florence Foster Jenkins

 

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO

Mahershala Ali - Moonlight

Jeff Bridges - Hell or High Water

Lucas Hedges - Manchester by the Sea

Dev Patel - Lion

Michael Shannon - Nocturnal Animals

 

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA

Viola Davis - Fences

Naomi Harris - Moonlight

Nicole Kidman - Lion

Octavia Spencer - Hidden Figures

Michelle Williams - Manchester by the Sea

 

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Fire at Sea

I am not your negro

Life animated

O.J.: Made In America

13Th

 

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL

Manchester by the sea

La la Land

The Lobster

Hell or High Water

20th Century Women

 

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL

Arrival

Fences

Hidden Figures

Lion

Moonlight

 

MELHOR BANDA SONORA

Jackie - Mica Levi

La La Land - Justin Hurwitz

Lion - Dustin O'Hallorean e Hauschka

Moonlight - Nicholas Britell

Passengers - Thomas Newman

 

Podem ver as outras categorias aqui

 

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