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SAY HELLO TO MY BOOKS

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10
Fev16

A sangue frio, Truman Capote

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Li-o em Janeiro deste ano e até calhou bem porque foi o mês em que completou 60 anos. Para começar digo já que se tornou num dos meus livros preferidos de sempre.

 

Temos um assassinato múltiplo numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos, em 1959 (Toda uma família morta por dois criminosos, sem razão aparente e de forma cruel) e temos a caça caça aos assassinos enquanto se tenta compreender o que lhes vai na cabeça. São estes os ingredientes deste livro que, mais uma vez, nos mostra que às vezes a realidade supera a ficção. 

 

Truman Capote era jornalista. Foi atrás de uma notícia que leu sobre o assassinato de quatro membros de uma família, em Holcomb, uma cidadezinha no estado do Kansas. Um notícia que podia não ter passado disso mesmo... Mas Capote investigou, pesquisou, questionou e escreveu aquela que dizem ser a primeira obra conhecida como "romance de não-ficção" - ou “jornalismo literário”, como também chamam. 

 

Sabemos, à partida, que há uma família assassinada na sua própria casa e sabemos quem são os culpados: Perry Smith e Richard Hickok. Não é spoiler para ninguém. O verdadeiro enfoque não é “Quem matou?”, mas sim “Como?” e “Porquê?”. E, mesmo sabendo como termina a história, a forma como Capote nos corta a respiração ao relatar certos acontecimentos é notável. 

 

Desde o crime até à execução dos assassinos, a obra faz-nos entrar no ambiente de Holcomb, conhecer os seus habitantes, os costumes e as mentalidades da época. Capote soube utilizar o seu talento não só para escrever, mas também no trato social com as dezenas de pessoas envolvidas no crime, direta ou indiretamente. Avisa-nos, no início do livro: "O material contido neste livro não é produto da minha observação direta. Foi colhido em relatos oficiais ou é fruto de entrevistas com as pessoas envolvidas no caso".  "A intensa relação que Capote estabeleceu com as suas fontes foi determinante para o êxito da obra. Além de passar mais de um ano em Holcomb, investigando e conversando com moradores, aproximou-se dos criminosos e conquistou a sua confiança. Traçou um perfil humano e eloquente dos dois «meninos», como costumava chamar-lhes", diz a sinopse da obra. 

 

Demorou cerca de seis anos a terminar o livro. Não só pelas demoradas entrevistas e por ter que organizar todas as informações, mas porque só em 1965 (seis anos depois do crime) é que o caso ficou encerrado de vez. 

 

Aliás, há quem diga que Capote não foi totalmente imparcial nos factos narrados quanto a Perry Smith. Dizem as más-línguas que o autor estava apaixonado pelo criminoso. Certo é que passou muito tempo com eles e todos esses anos de convivência levaram a que se envolvesse no caso. Dizem que, ao terminar o livro, tinha as mãos trémulas e os olhos em lágrimas. O parágrafo final é de uma beleza tocante no meio dos factos pesados que são relatados nas últimas páginas.

 

Capote dedica grande parte da narrativa à descrição das vítimas, os quatro membros da família Clutter (os pais, a filha Nancy e o filho Kenyon). Estes são apresentados minuciosamente ao leitor, que entra dentro do seu quotidiano, gostos, manias e forma de viver. Também direciona a atenção do leitor para a vida de Perry Smith e Richard Hickok, os autores do crime, que cresceram num contexto social complicado e que nos faz entender o que os motivou àquela atrocidade. Vou dizer até que Capote humaniza os assassinos. Damos por nós a tentar compreender a sua forma de pensar e, até a ter pena da vida madrasta que lhes calhou em sorte.

 

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Foto: Richard Hickok e Perry Smith (criminosos)

 

Toda a obra é rica em detalhes, em conteúdo. A forma como Capote nos faz perceber a passagem das horas no derradeiro dia do crime, é espetacular. A maneira como nos mostra vários ângulos do que aconteceu e as diversas reações na cidade é genial. 

 

E garanto que não há NINGUÉM que comece a ler o livro e não vá rapidamente ao Google procurar imagens dos assassinos e da família Clutter. É aquele lado voyeur que todos temos. Foi também no Google que encontrei uma fotografia que Capote refere no livro. Os dois criminosos a rirem-se à saída do tribunal depois de terem conhecido a sentença, que lhes valeu a pena de morte. 

 

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A minha experiência de leitura com este livro foi incrível. Não conseguia pousá-lo. "Só mais uma página" e assim foi até ao final. Cada vez mais in love com a escrita dele, que nos agarra, que é tão simples e complexa ao mesmo tempo. Capote é mestre. Se com "Boneca de Luxo" não fiquei rendida à sua escrita, com "A sangue frio", fiquei fã. Há alguns livros - raros - que sabemos que vamos adorar, mesmo antes de virarmos a primeira página. "A sangue frio" foi um deles. E não estava enganada. 

 

Agora vou a correr ver o filme "Capote", que fez o Philip Seymour Hoffman ganhar o Óscar de Melhor Actor em 2006. E acabo aqui este post, porque por mim escrevia mais 7635446 linhas sobre este livro.

 

Sinopse: 

A Sangue Frio conta a história da morte da família Clutter, em Holcomb, Kansas, e dos autores da chacina. Capote decidiu escrever sobre o assunto ao ler no jornal a notícia do assassinato da família, em 1959. Quase seis anos depois, em 1965, a história foi publicada em quatro partes na revista The New Yorker. Além de narrar o extermínio do fazendeiro Herbert Clutter, de sua esposa Bonnie e dos filhos Nancy e Kenyon –uma típica família americana dos anos 50, pacata e integrada na comunidade–, o livro reconstitui a trajectória dos assassinos. Perry Smith e Dick Hikcock planearam o crime acreditando que se apropriariam de uma fortuna, mas não encontraram praticamente nada. Perry era um sonhador. Cresceu de uma forma conturbada e violenta, e achava que a vida lhe tinha dado golpes injustos. Dick, considerado o cérebro da dupla, queria apenas arrebatar o dinheiro e desaparecer. Presos e condenados, ambos morreram na forca em 1965.

 

Título: A sangue frio

Autor: Truman Capote

Edição: Visão (Colecção Lipton - Mestres Policiais), 2000

Ano publicação: 1966

 Nº páginas: 319

 

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