Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

SAY HELLO TO MY BOOKS

SAY HELLO TO MY BOOKS

Diário de Anne Frank, Anne Frank

FullSizeRender (3)(1).jpg

 

Tenho tanto para dizer sobre este livro mas, por outro lado, sinto que nada do que possa dizer é suficiente para descrever tudo o que me fez sentir. Várias vezes durante a leitura, especialmente quando Anne reforçava a esperança e planos que tinha para o futuro, quando a guerra acabasse, fechava os olhos uns instantes e sofria, por saber que esse futuro nunca lhe chegou. O leitor sabe, desde o início, como termina a história. E, por essa razão, toda a leitura tem um gosto amargo. 

 

Li-o a primeira vez com 14 anos. Reli-o agora, com 29, na mesma edição, mas com outros olhos, outra maturidade e outra emoção. Se da primeira vez tentava imaginar o que seria uma adolescente, como eu, viver escondida, isolada e privada da liberdade e dos amigos, enquanto está em constante crescimento e formação, hoje não consigo sequer imaginar o que terão sido aqueles dois anos para ela e todos os que ali viviam. A angústia constante, a incerteza, a fome que nunca é satisfeita e a falta de coisas tão simples como, tomar um banho como deve ser, beber café ou sentir a brisa no rosto. 

 

Acho que todos conhecem a história de Anne e da sua família, judeus de nacionalidade alemã que viviam há vários anos na Holanda. Com o cerco nazi a apertar, escondem-se para evitar a ida para os campos de concentração. Criam artimanhas para que se pense que fugiram para a Suíça e “mergulham” no anexo da empresa onde Otto Frank, pai de Anne, trabalhara, com mais quatro pessoas. Enquanto o escritório tivesse a funcionar durante o dia, não podiam fazer barulho, não podiam usar a casa de banho, ligar a água, falar alto, nada. Alguns dos colegas de Otto tornam-se aliados e protetores deste segredo, levando-lhes comida, livros, roupa, entre outras coisas. Em baixo, os oito moradores do anexo, e na última linha, os quatro protectores. 

 familia-de-anne-frank.jpg

 

Anne recebe o diário em Junho de 1942, no 13º aniversário, ainda em liberdade. Percebemos que era uma miúda “saída da casca”, extrovertida, sociável, vaidosa, curiosa e desafiadora. Por isso, quando se vê presa, toda essa energia e sede de mundo transformam-se em frustração, momentos de depressão misturados com euforia e uma grande dose de contradição, comum a qualquer adolescente. O problema é que está num espaço limitado com mais sete pessoas com as quais não se identifica. O pai, que adora, a irmã, muito diferente dela, a mãe, com quem tem problemas, o casal “van Dann” (nomes que inventou para proteger a identidade deles) e o filho Peter, uns chatos, e ainda o dentista a quem chama Dussel, com quem divide o quarto e com quem tem variadas discussões. Isso traz-lhe uma grande solidão. Dá respostas tortas aos adultos, é chamada de malcriada, preguiçosa, insolente. Numa idade crucial de formação de personalidade, mentalidade e carácter, Anne está condicionada a nível físico, social e mental. E nós acompanhamos esses conflitos e esse crescimento doloroso. Ainda assim, nunca perde o sentido de humor e somos testemunhas disso em várias passagens do diário. 

 

“Combinámos não abrir as torneiras e não puxar o autoclismo no WC.

Mas como o susto provocou o mesmo efeito em todos nós, podes imaginar o cheirete num certo sitio..."

 

É por se sentir sozinha e incompreendida que o diário ganha uma importância vital, funcionando como uma terapia durante aquele tempo. Dá-lhe o nome de Kitty e escreve como se estivesse a contar o dia-a-dia, as coisas mais simples como as rotinas de almoço e jantar, ou assuntos mais sérios como os avanços da guerra, a uma amiga que mora longe. 

 

"Não tenho uma verdadeira amiga, pois ninguém pode compreender que uma rapariga de treze anos

se sinta só. (...) Não consigo abrir-me, sinto-me como que abotoada. Por tudo isto é que escrevo um diário.

Este diário há-de ser a minha amiga".

  

"Mais tarde, nem eu nem ninguém, achará interesse nos desabafos de uma rapariga de treze anos.

Mas não importa. Apetece-me escrever e quero aliviar o meu coração de todos os pesos".

 

FullSizeRender (27)(1).jpg

 

Anne nunca deixou de estudar. Geografia, Álgebra, História e Línguas. Adorava ver e recortar revistas de cinema. Lia muito e escreveu, além do diário, vários contos naqueles anos.

 

"As pessoas que estão em liberdade e que fazem uma vida normal, não podem calcular

o que significam os livros para gente isolada do mundo exterior".

 

Tinha uma mente avançada para a época, não queria viver só para o marido. Queria viajar, estudar no estrangeiro, ser jornalista e depois escritora. Era culta, interessada e com reflexões profundas sobre o mundo, a alma humana e sobre si própria. Por vezes, senti-me até um pouco culpada por entrar de forma tão intensa no íntimo de uma miúda de 15 anos. Mas em muitos posts conta-nos acontecimentos banais do dia-a-dia. Narra-os como se de histórias literárias se tratassem, com diálogos e pormenores interessantes. O armazém, que ficava em baixo do anexo, foi assaltado diversas vezes naqueles anos. Anne conta esses acontecimentos como se tivesse a escrever ficção. Lia muito, portanto tem uma sensibilidade narrativa grande. Sabe criar picos de tensão e dar peso dramático nos momentos certos. 

 

Anne ensina-nos a manter a sanidade mental, vivendo numa angústia constante. Ensina-nos a encontrar escapes e a manter o bom humor, não deixando que o medo nos consuma. Uma das características de Anne que mais me impressionou, foi a fé inabalável de que tudo ia acabar bem. Nunca perdeu a esperança, sempre acreditou que o fim da guerra ia chegar e que voltariam à vida normal. 

 

"Muitas roupas nossas estão nas casas de outras pessoas, mas só depois da guerra poderemos ir buscá-las".

“A Margot diz que eu talvez já possa voltar à escola em Setembro ou Outubro”.

"Podemos pensar nos vestidos e livros que havemos de comprar."

“O meu desejo é neutralizar-me holandesa depois da guerra”.

 

As várias versões do Diário e a polémica sobre a fraude

Anne fez vários planos para o pós-guerra. Um deles era publicar o seu diário. Assim que ouvi na rádio, em 1944, o governo holandês sugerir que quem tinha diários e escritos sobre aquele período os conservasse pois podiam teriam interesse em ser publicados no futuro, Anne começou a editar o seu próprio diário. Voltou ao início e começou a cortar certas partes e a acrescentar outras. Essa é a versão B. Mais tarde, quando Otto teve acesso ao diário (já depois da guerra, a amiga da familía Miep que o encontrou, devolveu-o ao pai), decidiu publicá-lo, fazendo uma edição minuciosa e omitindo algumas partes que considerava mais privadas, como passagens onde Anne falava da sua sexualidade, por exemplo. Essa é a versão C e a que chega à maior parte das pessoas. Sabe-se também que várias entradas do diário se perderam, principalmente de 1943. Talvez por isso, ou pela maior necessitado de desabafar no último ano, quando já estava saturada daquele local e tinha as ideias mais no sítio, é visível a diferença de número de postagens. Anne escreveu 54 entradas no primeiro ano em que esteve fechada e 110 no segundo, de Julho de 1943 a início de Agosto de 1944.  

Mas nem tudo é o que parece. Durante anos, várias foram as acusações feitas de que teria sido Otto a escrever o diário. Chegou mesmo a ser acusado e ir a julgamento. Diz-se que pegou em alguns apontamentos escritos pela filha e acrescentou muita informação, fabricando o diário na sua maioria. Se pararmos para pensar, não é de todo impossível. Há várias teorias espalhadas pela Internet. Leiam este artigo, vale muito a pena. E se quiserem vejam também este post, como há muitos espalhados por aí. 

 

0,,18286474_401,00.jpg

 

Admitindo que foi mesmo a própria a escrevê-lo, um dos pontos mais interessantes do diário é acompanhar o amadurecimento de ideias e reflexões. Com 13 anos já mostrava uma capacidade de análise fora do comum para a idade, mas à medida que o tempo vai passando, assistimos a uma evolução de Anne, tanto que o próprio pai disse em público, mais tarde, não ter ideia da profundidade de sentimentos e pensamentos da filha. Ganha uma maturidade incrível naqueles dois anos. Não só nas reflexões sobre o Mundo e a Humanidade, como na forma de agir com quem a rodeia, na forma como consegue admitir quando erra e é injusta, no amor que ganha pela natureza e as coisas simples da vida. Anne Frank escrevia de forma eloquente, tinha vocabulário alargado, esperteza e sensibilidade para perceber a atmosfera à volta dela. Era muito autocrítica, com instropecções profundas e uma constante procura por aperfeiçoar-se e conhecer-se a si própria. Quantas miúdas de 15 anos têm esta capacidade? Claro que a o isolamento forçado a obrigou a ter uma vida menos agitada do que qualquer adolescente normal, mas ainda assim, Anne era especial. 

 

"Tenho de me aperfeiçoar sozinha, sem exemplo e sem ajuda, só assim hei-de ser um dia forte e resistente".

“Sei o que quero, tenho uma finalidade, uma opinião, tenho fé e amor. Tenho consciência de ser uma mulher com força interior e muita coragem.”

"Não podes, nem deves, considerar-me uma rapariga de catorze anos. A nossa tragédia tem-me envelhecido".

 

Vamos notando também que Anne se torna mais fria. A realidade era dura, as notícias da guerra e da perseguição aos judeus aterradoras, e tudo isso a moldou-a numa época em que ainda estaria a desenhar o seu carácter. Tem noção do bem e do mal, não é hipócrita, diz tudo o que lhe vem à cabeça, mesmo que isso magoe alguém, especialmente a mãe com quem tem uma relação agridoce. Todas as referências sobre a relação são tristes e, ao mesmo tempo, de frontalidade imensa. Anne chega a dizer que não tem sentimentos pela mãe e tem pena disso. "Sou em tudo o contrário da mãe, por isso é inevitável que nos choquemos. (...) Vejo-a apenas como minha mãe. E ela não é para mim a mãe que idealizei".

                                                                                                                  

Sabemos que não é fácil quando várias pessoas são fechadas num espaço pequeno meses e meses a fio. É de levar qualquer um à loucura. Basta vermos o que acontece nos reality shows, onde várias personalidades diferentes em pouco tempo estão a discutir pelos mais pequenos pormenores da vida quotidiana. Naquele anexo, aconteceu a mesma coisa. Não têm muitas distrações, não podem sair para espairecer, não têm novos estímulos. Ao fim de algum tempo dá molho. É assim a natureza humana. 

 

Já no último ano no anexo, Anne apaixona-se por Peter, filho do outro casal do esconderijo, que nada tem a ver com ela. A própria admite que em condições normais de liberdade, não se teria interessado por ele. É aqui que nos lembramos que é apenas uma adolescente, cujo maior medo devia ser levar uma nega do rapaz que gosta ou chumbar num exame da escola. Em vez disso, vive sob a sombra da guerra, num medo e angústia constantes.

 

"Proibimos a Margot, que anda terrivelmente constipada, de tossir de noite". 

"Qualquer pequeno desleixo podia trair-nos."

 

"Aflige-me a ideia de não se poder sair daqui e tenho medo que nos descubram e nos fuzilem".

 

Este não é apenas o diário de uma miúda. É um documento histórico sobre a perseguição aos judeus, a Segunda Guerra Mundial e o que acontece quando a deseumanidade chega ao poder. Anne relata várias vezes as privações e regras que os alemães impuseram aos judeus, como não poder sair à rua depois das 20h, não poder andar de bicicleta nem nos transportes públicos, não poder frequentar teatros e cinema nem praticar qualquer desporto, fazer compras apenas num horários específico, etc. Depois começaram a desaparecer e ouvia-se falar em câmaras de gás, mas ninguém sabia ao certo o que estava a acontecer.

 

"Não poupam ninguém: velhos, crianças, grávidas, doentes...todos têm de entrar na dança da morte.

E nós aqui tão bem guardados. (...) Quando estou deitada na minha cama, tão quente e confortável,

enquanto as minhas amigas sofrem lá fora, talvez expostas ao vento e à chuva, mortas até, sinto-me quase má. (...) ao lembrar-me de que estão entregues aos mais cruéis carrascos que a historia dos homens ja conheceu.

E tudo isto só por serem judeus!". 

 

"E lembrar-me que também já fui alemã! Hitler tirou-nos a nacionalidade há muito! Entre aquela espécie de alemães - os hitlerianos - e os judeus, existe uma inimizade como não pode haver mais forte em todo o mundo." 

 

FullSizeRender (26)(1).jpg

 

Anne tornou-se a voz de todos aqueles que não tiveram tempo de dizer o que pensavam, o que sentiam, que foram levados e mortos sem poder deixar nenhum testemunho.

 

A última entrada do diário, a 1 de Agosto de 1944, três dias antes de serem capturados, Anne escreve algumas das passagens mais pessoais de todo o livro: “Não tenho só uma alma, mas sim duas. Uma dá-me a minha alegria, exuberante, a minha vontade de viver. Esta primeira alma está sempre à espreita e faz tudo para suplantar a outra que é mais bela, mais pura, mais profunda. Essa alma boa da Anne ninguém a conhece. E é por isso que pouca gente gosta de mim. (…) No meu interior, a Anne pura é que me indica o caminho”.

 

 "Goza a tua liberdade enquanto for possível", disse Otto Frank a Anne, em Julho de 1942, antes de terem que se esconder. Eu nasci em liberdade, num país livre sem guerras, nem ditadura. Não sei o que é sentir preconceito e censura na pele. Tenho uma vida privilegiada. Posso sair de casa e passear onde quiser, receber o sol no rosto, a brisa, a chuva. Posso viajar, ir ao cinema, à praia e ao campo. Posso comer o que me apetecer, ler os livros que quiser, tomar banho com privacidade e dormir em paz. Às vezes esquecemo-nos a importância que a liberdade tem. Não a posso tomar como garantida, não sei o dia de amanhã.

 

Anne morreu no início de 1945, no campo de concentração de Bergen-Belsen, poucas semanas antes de ser libertado pelos aliados. Ela e Margot morreram doentes, com tifo, a pensar que os pais tinham também morrido. Relatos de pessoas que sobreviveram e lidaram com ela nos campos, dizem que tinha perdido a vontade de vida. Custa-nos imaginá-la assim, depois de ler o diário. 

 

O destino da Anne Frank faz parte da Historia. Ela ensinou-nos que a vida vale a pena ser vivida, todos os dias. “Não quero ficar insignificante. Quero conquistar o meu lugar no Mundo e trabalhar para a Humanidade”. Ela queria ser lembrada e continuar a viver para além da sua morte. Conseguiste, querida Anne.

 

annefrank.jpg

 

Têm todas as imagens, biografias e informação sobre todas as pessoas envolvidas na história, o que lhes aconteceu e pormenores muito interessantes no site oficial: http://www.annefrank.org/pt/ . É um complemento que vale a pena explorar. 

Título: Diário de Anne Frank

Autor: Anne Frank

Edição: Livros do Brasil, 2001

Ano de publicação: 1947

 Nº páginas: 350

4 comentários

Comentar post