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SAY HELLO TO MY BOOKS

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Clube dos Clássicos Vivos | Setembro 2017

Ontem aconteceu mais um encontro do Clube dos Clássivos Vivos, o terceiro feito ao vivo e a cores e o segundo onde estive. Para quem não conhece, é um clube de leitura criado pela Cláudia, do blog e canal A Mulher que Ama Livros, no Goodreads. É aberta uma votação entre vários clássicos, o escolhido tem um prazo de dois meses para ser lido e entretanto vai-se discutindo o que se achou do livro. Eu só comecei a participar no Clube este ano e, felizmente, começou a ser presencial. O primeiro encontro aconteceu em Óbidos, em Abril (não consegui ir...snif snif), para falar de Paris é uma Festa do Hemingway; o segundo foi em Junho, na Feira do Livro de Lisboa, sobre Boneca de Luxo do Capote e agora, em Setembro, o terceiro encontro aconteceu ontem, na Fábrica das Palavras, em Vila Franca de Xira, onde falámos de O Vermelho e o Negro, de Stendhal. 

 

Comentámos que este foi um clássico um bocadinho "desprezado" ou deixado a meio pela maioria. Tenho pena, mas compreendo... Eu não votei neste e quando vi que ganhou pensei "que seca...deve ser chato e pesado". Não podia estar mais enganada e ainda bem que foi escolhido e pude conhecer a grande jornada de Julien Sorel, protagonista incrível que Stendhal criou. É daqueles livros que se não fosse pelo Clube, provavelmente não tinha lido já. 

 

A distância física também não é desculpa. Moro em Oeiras e fui até Vila Franca, mudar de ares e conhecer um sítio bonito. Saiam da vossa zona conforto, seja em relação a livros, sítios e pessoas. Bom, demos uma volta pela Biblioteca, que tem o brilhante nome de Fábrica das Palavras, e depois sentámo-nos na esplanada, ao lado do rio, a conversar sobre este clássico, as nossas impressões, o que gostámos muito ou nem tanto, as nossas interpretações sobre o título, os factos da vida do próprio autor e tanto mais. É tão bom poder trocar opiniões com quem lê o mesmo que nós.

 

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Todas sofremos um bocadinho do mesmo: não ter um número grande de amigos à nossa volta que goste muito de ler. Todas nós sentimos falta, em algum momento da nossa vida, de ter com quem falar de livros e partilhar o que lemos e, por isso mesmo, todas nós criámos blogs, canais e entrámos em clubes literários para ocupar esse espaço em branco. Portanto, a ideia principal que sai deste post, e deste encontro no geral, é que OS LIVROS UNEM PESSOAS. Foi esta frase que dissémos a uma senhora que nos abordou a meio do encontro. Estava sentada numa mesa ao nosso lado e decidiu interromper a nossa conversa para dizer o quão emocionada estava por nos ver ali, sentadas e felizes, a discutir uma obra clássica. Apresentou-se, disse que era Professora de Português e que trabalha com o Ministério da Educação num projecto para divulgar a língua portuguesa em vários países. Emocionou-se mesmo, quis saber mais sobre nós e foi com muita sinceridade e sensibilidade que elogiou a nossa iniciativa, o nosso amor aos livros e ainda pediu para nos tirar uma fotografia para partilhar no seu Facebook como um bom exemplo a seguir. 

 

Depois de dissecarmos O Vermelho e o Negro, fomos à procura de um sítio para almoçar e, quando nos sentámos, as horas passaram a voar. A conversa fluiu por muitos assuntos, tendo sempre os livros como protagonistas, mas também muita conversa boa sobre muitos outros temas. Que inspiração é estar com pessoas assim. 

 

O clássico de Setembro e Outubro é Dom Casmurro do Machado de Assis. O encontro será no início de Novembro, num local a ser decidido. E podem também fazer parte do Clube aqui e seguir o blog.

 

Post da Cláudia aqui. Post da Carolina aqui

 

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Próximos lançamentos que podiam vir cá para casa

O Observador fez um apanhado dos próximos lançamentos de várias editoras e ter tudo organizadinho assim num só artigo facilita muito a vida. Desde a Feira do Livro de Lisboa que não compro nada (já vai para três meses) - mostrei as compras aqui e aqui - porque estiquei-me por lá e decidi não comprar mais livros até final do ano. Acho que só compro se encontrar algum livro que queira muito com um preço imperdível. 

 

Bom, o Observador partilhou então quais são os títulos que as editoras vão lançar no mercado nestes próximos meses. Vai sair muuuita coisa boa, minha gente. E há alguns que podiam claramente vir cá para casa. São eles:

 

SETEMBRO

AntígonaSei Porque Canta o Pássaro na Gaiola, Maya Angelou

QuetzalO Caminho Imperfeito, José Luis Peixoto

Companhia das LetrasDois Irmãos, de Miltom Hatoum

Porto EditoraBanda desenhada do diário de Anne Frank, com texto de Ari Folman e ilustrações de David Polonsky

Livros do BrasilCidadela, obra póstuma de Antoine de Saint-Exupéry

ElsinoreAs Últimas Testemunhas, Svetlana Alexievich - sobre a Segunda Guerra!!!

BertrandPortugal visto pela CIA, Luís Naves e Eric Frattini

Oficina do LivroCharlie e a Fábrica de Chocolate, Roald Dahl - um clássico da literatura infantil que tenho em inglês.

 

OUTUBRO

Relógio d’Água

Jack e Alice & Amor e Amizade, Jane Austen

Os Diários, Virginia Woolf

 

NOVEMBRO

QuetzalDetetives SelvagensRoberto Bolaño

Editorial PresençaO Lápis Mágico da Malala, Malala Yousafzai - livro infantil da autora 

 

 

Durante estes meses chegam também as novidades de Ken Follett, Dan Brown, o novo prémio Pulitzer de Colson Whitehead, o quinto volume da saga Millenium, mais Saramago, mais Stephen King, muuuita poesia, entre tantas outras coisas. Para todos os gostos. 

 

TAG | Livros Não Lidos

Há muuuito tempo que não faço uma tag literária por aqui, portanto hoje é o dia. Vi esta no canal da Dora, só tem sete categorias e fala dos livros que tenho na estante mas ainda não li. 

 

1 - Livro não lido mais antigo da estante 

O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder 

Tenho-o há muito, muito tempo. Alguém me ofereceu durante a adolescência (tanto que a capa actual já nem é esta), mas nunca o li. Fez muito sucesso, houve uma época em que toda a gente o lia mas, não sei porquê, foi ficando na estante até hoje... Mas como eu gosto de filosofia e acho que vale a pena conhecer pelo impacto que teve, será lido...só não sei quando. 

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2 - Livro que foi comprado por impulso

O Herói Discreto, Mario Vargas Llosa

Comprei-o, há uns anos, na Feira do Livro de Lisboa pura e simplesmente porque estava como Livro do Dia com 50% de desconto. Nunca li nada do Vargas Llosa e na altura pouco sabia sobre ele ou sobre o livro. Foi mesmo uma compra por impulso, parada na estante até hoje... 

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3 - Livro que recebeste e não estava na tua wishlist

Os Filhos do Edén, Ken Follett

Foi-me oferecido num aniversário, depois de ter comentado com uns familiares que tinha lido dois livros do autor (por sinal dois dos mais antigos e dos quais não tinha gostado assim tanto). Lá continua o Follett na estante à espera de uma nova oportunidade...

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4 - Livro que te arrependeste de ter comprado

Alguns da série Guerra dos Tronos, George R. R. Martin

Simplesmente porque comprei logo alguns dos últimos, numa promoção, sem sequer ainda ter lido os primeiros. E depois de ler o primeiro, com a série já mais avançada, nunca mais lhes peguei... 

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5 - Livro muito desejado mas, quando adquiriste, perdeste a vontade

A rapariga que roubava livros, Markus Zusak

Não foi bem perder a vontade porque continuo a querer lê-lo, mas comprei-o há muito tempo com uma vontade enorme de o ler e acabou por ir passando o tempo e nada... Vai ser lido ainda este ano. 

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6 - Livro que tens vergonha de ainda não ter lido

Jane Eyre, Charlote Bronte

Comprei-o há cerca de três anos e tenho a certeza que vou adorar. Houve uma altura que comecei a ler, mas por algum motivo parei logo no início... Porque é que ainda não o li? Não faço ideia... Toda a gente que leu, adorou e é daqueles clássicos imperdíveis.

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7 - Quantidade de livros não lidos na estante

Contando apenas com aqueles que são mesmo meus (excluindo os que "roubei" aos meus pais ou  os que tenho emprestados de amigos) são cerca de 45.  Oh-my-God! #respirafundo 

 

A Minha Pequena Livraria, Wendy Welch

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"Os bibliófilos sabem que os livros não são apenas ideias encurraladas entre capas,

mas artefactos, marcos na nossa vida".

 

Tenho como absoluta certeza que qualquer livro que fale de livrarias aquece o coraçãozinho de um bibliófilo. E este não é diferente. Wendy Welch dá-nos uma visão muito engraçada vs. assustadora do que é abrir uma livraria independente, contra tudo e todos, e faz-nos querer abrir uma também, seguindo os conselhos que nos deixa nestas páginas. Ela e o marido, Jack, mudaram-se para uma cidadezinha no interior dos EUA, chamada Big Stone Gap - com apenas cinco mil habitantes - cheios de vontade de mudar de vida, recuperar a sanidade mental perdida em empregos que não os faziam felizes e recomeçar do zero, rodeados de paz, amigos novos e muitos livros. Compraram uma vivenda grande, gastando as suas economias, com o objetivo de viver no andar de cima e abrir a livraria em baixo. E assim nasceu a Tales of Lonesome Pine Used Books, uma livraria de livros usados que nem eles tinham noção o quanto ia mudar a sua vida. 

 

Sem saberem bem no que se estavam a meter, conseguiram realizar um sonho, admitindo, mais tarde, a inexperiência inicial a gerir um negócio próprio. A autora partilha qual foi a reação inicial da comunidade, como foram ganhando clientes, descobrindo novas formas de fazer publicidade, sem custos, como fizeram novos amigos e também como se sentiram outsiders ali durante muito tempo. Conta-nos o que correu bem e o que correu menos bem, os pormenores a que devia ter dado mais atenção, os erros cometidos e as ideias que acabaram por salvar o negócio. Para além dos números, lucros e contas a pagar, tiveram que lidar com os mexericos de uma cidade pequena, a falta de clientes inicial, a desconfiança dos habitantes locais e até alguns maus tratos. Wendy conta-nos, de forma descontraída, todos os problemas de que os sonhadores nunca se lembram quando vão atrás do seu sonho. No início, nem livros suficientes tinham para abrir a livraria. Ficamos a saber como conseguiram arranjá-los e como foram fazendo crescer o negócio, ganhando a confiança dos habitantes locais e chegando a mais gente, de outras cidades. Ficamos a conhecer todas as boas e más surpresas que surgiram ao longo do tempo, e todos os novos amigos que entraram nas suas vidas por causa da livraria.

 

"Talvez a melhor coisas que os livreiros fazem pelo mundo não é vender histórias às pessoas,

mas escutar as histórias delas". 

 

É engraçado que estava à espera de um livro sobre livros mas, em vez disso, e como uma nota escondida no bolso de um casaco antigo, encontrei um livro sobre pessoas dos livros. Afinal de contas, quando se tem uma livraria, quem está atrás do balcão não é apenas vendedor, torna-se também psicólogo, ouvinte profissional e conselheiro de serviço. Sendo baseado em factos reais, mais força ganham as histórias contadas por Wendy sobre os clientes que por lá passam.

 

"Em abono da verdade, as histórias mais assustadoras, mais duras, mais tristes, mais importantes

que se encontram numa livraria não estão nos livros, estão nos seus clientes". 

 

Transversal a todo o livro é também a discussão sobre e-readers e livrarias online. A autora traz-nos várias reflexões sobre a utilidade e praticidade dos e-readers actualmente e questiona-se se poderão roubar o lugar ao papel, assim como se as livrarias online poderão acabar com as físicas. Na verdade (exactamente o mesmo que eu própria penso), há espaço para tudo. Continua a haver leitores que não dispensam o papel, assim como leitores que só lêem no digital; abrem-se lojas online, mas as físicas continuam presentes na vida das pessoas. Até porque a Internet nunca vai substituir o prazer de uma boa conversa cara-a-cara

 

"Os livreiros, pelo menos até conseguirem ser replicados online, são o motivo por que as pequenas livrarias ainda existirão. (...) As livrarias físicas são pontos de convergência para os espíritos e intelectos humanos. Os e-readers e as livrarias online não nos permitem contar a histórias por trás da compra de determinado livro". 

 

Foi uma boa surpresa. Bendita a hora em que encontrei o livro num alfarrabista, na Feira do Livro de Lisboa, a cinco euros (mesmo tendo sido publicado só há cinco anos) e o trouxe comigo. Sem grandes pretensões, é um testemunho sincero, envolvente e cativante, que ilustra o poder que os livros têm para unir as pessoas, o papel essencial possuem, não só para os leitores, mas na vida de uma comunidade. É uma história que nos recorda o poder transformador dos livros e, se lerem este, vão perceber porquê. É uma leitura fácil e fluída que nos deixa com vontade de ir abraçar a nossa estante e agradecer aos livros o bem que nos fazem.

 

"Sabiam que uma das primeiras coisas que a vítima de um incêncio substitui

é os seus livros preferidos de infância?

 

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Tales of Lonesone Pine Used Books - Fotografia da Livraria (Imagem retirada do Google)

 

 (3.5)

Título: A minha pequena livraria

Autor: Wendy Welch

Edição: Noites Brancas (Clube do Autor), 2013

Ano de publicação: 2012

 Nº páginas: 275

Travessia de Verão, Truman Capote

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Capote morreu em 1984. Travessia de Verão foi publicada pela primeira vez em 2006. Confusos? Na verdade, é mais um daqueles casos polémicos e divisores de opiniões em que terceiros publicam obras que não sabemos ao certo se os autores gostariam de ver tornadas públicas (como o Vai e Põe uma Sentinela, de Harper Lee). Será ético? O que aconteceu foi o seguinte: Capote começou a escrever este livro em 1943, mas acabou por deixá-la de lado quando as suas atenções se viraram para aquela que seria a sua estreia literária, "Outras Vozes, Outros Quartos", publicada em 1948. Apesar disso, Capote continuou a retocar aquela obra durante alguns anos até a pôr definitivamente de parte. Em 1966, depois do sucesso estrondoso de "A Sangue Frio" (um dos meus preferidos de sempre), Capote deixou o apartamento onde vivia em Brooklyn, abandonando todo o seu recheio, dando ordens ao porteiro para deitar no lixo o que tivesse ficado para trás. Não sei que onda divina passou pela cabeça do dito porteiro na altura, mas a verdade é que "salvou" uma caixa cheia de papéis e documentos e guardou-a consigo. Caixa essa que passou incógnita durante décadas, até à morte do senhor em 2004, quando um parente encontrou a caixa e decidiu vendê-la à Sotheby's que, por sua vez, pôs em leilão aquele espólio desconhecido de Capote, que incluía manuscritos de várias obras publicadas, cartas, fotografias e aquilo que parecia ser um romance inédito: quatro cadernos de escola e sessenta e duas páginas de notas que formavam o manuscrito de Travessia de Verão. O Fundo Literário Truman Capote detinha direitos de publicação de todas as obras de Capote e acabou por convencer a Biblioteca Pública de Nova Iorque, onde outros manuscritos e documentos do autor estão guardados, a comprar o resto dos documentos. 

 

Romance com pouco mais de cem páginas, passado em Nova Iorque logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, conta a história de Grady McNeil, jovem de uma família rica, prestes a completar 18 anos, que os pais deixam sozinha durante o Verão, no apartamento onde vivem na 5ª Avenida, enquanto viajam pela Europa. Grady acaba por se envolver num romance com um judeu que vive em Brooklyn, um pouco mais velho, e que à primeira vista não parece ser o melhor para ela. Lembra-vos alguma comédia romântica de domingo à tarde? Pois. Mas esta foi escrita há 70 anos, quando a sociedade, as mentalidades, os hábitos e o socialmente aceitável não eram o que são hoje. Antes de qualquer comédia romântica de adolescentes ser pensada para cinema, já Capote escrevia uma. E bem. Uma história de amor, de juventude e de amor na juventude. Tão actual que podia ter sido escrita a semana passada. Tão actual que nos parece banal, mas não vamos esquecer-nos que foi escrita em 1943. E, por isso mesmo, o final surpreendeu-me. Deixa à imaginação de cada um, apesar de se perceber o que aconteceu. 

 

São 115 páginas, uma história curta, talvez até curta demais. Tenha pena que Capote não tenha aprofundado mais os personagens, não os tenha feito evoluir como poderia, não tenha desenvolvido e tornado mais complexo o enredo. Gostava de saber mais sobre a família de Clyde, o namorado - temos um cheirinho, bem bom por sinal, mas não passa disso - gostava de saber mais sobre os seus amigos, gostava de ver aprofundada a relação de Grady com a irmã, gostava de ver Peter, o amigo-apaixonado mais envolvido no final, enfim... A história acaba por ser demasiado rápida para deixar marcas a longo prazo, ainda que nos consiga envolver no momento da leitura e mostrar-nos como um romance simples, tão simples, pode ser bom. Porque Capote tinha uma escrita poética, um talento enorme em construir frases bonitas umas atrás das outras e assim formar uma obra segura, ainda que a escrita estivesse mais verdinha e menos polida nesse início de carreira. Ia sem expectativas, sem ter ouvido falar muito da obra, apenas com a certeza de que quero ler tudo de Capote. Foi uma boa surpresa.

 

Título: Travessia de Verão

Autor: Truman Capote

Edição: Dom Quixote, 2007

Ano de publicação: 2006

 Nº páginas: 115