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SAY HELLO TO MY BOOKS

SAY HELLO TO MY BOOKS

16
Nov17

Jorge Amado, Saramago, Pilar e vinho tinto. Como foi a apresentação do livro?

Aconteceu ontem, às 18h30, na Fundação José Saramago, em Lisboa, a apresentação do livro "Com o mar por meio - Uma amizade entre cartas", do qual falei aqui. Combinei com algumas meninas dos livros (#vivaoclube) e lá fomos, ansiosas para conhecer esta obra que já tinha sido publicada no Brasil, em Julho. 

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O evento era no quarto andar. Decidimos ir pelas escadas e excusado será dizer que paramos em todos os pisos. Nunca tinha ido à Fundação (shame on me...eu sei) e achei lindo as paredes forradas de edições antigas e recentes dos livros de Saramago, edições de vários países, cadernos pessoais, fotografias, objetos que pertenceram ao escritor e que instigam a imaginação de qualquer fã. ("Era nesta máquina que ele escrevia" ... "Por onde terá este caderno viajado?"). Entre exclamações de admiração, partilha de curiosidades e vistoria pela loja, como já era de esperar, chegámos alguns minutos atrasadas à sala do evento, já sem cadeiras disponíveis para as cinco. E como todos os malandros têm sorte, indicaram-nos um banco mesmo à frente, onde nos sentámos e podemos assistir à apresentação em primeira fila.

 

Um representante da Fundação e uma das responsáveis da Companhia das Letras Portugal abriram as hostilidades. O livro chega a Portugal precisamente na data de aniversário de Saramago, faz hoje (16 Novembro) 95 anos do seu nascimento. Estava presente Pilar del Rio, companheira de tantos anos de Saramago e presidente da Fundação. Confessou que os livros sairam ontem mesmo da gráfica e que, devido a um problema, por pouco não chegavam a tempo do evento. Felizmente chegaram e eu trouxe o meu exemplar para casa. 18€ redondos. Tnha conseguido com desconto se comprasse online, mas a verdade é que comprando ali podia ser assinado por Pilar. Hesitámos em pedir-lhe que assinasse, questionámo-nos se seria de bom tom, mas visto que ela foi parte fundamental no trabalho de recolha e organização do livro, tal como Paloma, filha de Jorge Amado, achámos que não teria mal. Pusemos a vergonha de lado e fomos falar com ela, à espera de um sorriso amarelo e uma simpatia forçada. Mais uma vez, a vida a mostrar-me que as aparências iludem, desta vez para o bem. Pilar foi super simpática, acessível, com bom humor. Assinou os livros, com dedicatória, fazendo referência ao aniversário de Saramago, na página em que é publicada uma fotografia sua com Paloma. Quantos mais livros houvesse, mais assinava. Depois, tirámos fotografias, sempre de sorriso na cara, como podem ver, e ainda fizemos um brinde. A organização ofereceu um copo de vinho tinto a quem estava presente, Pilar distribui os copos por nós, que estávamos ao seu lado no momento, e brindámos juntas. Ao livro, a Saramago e à Amizade. Ela mandou um "Salud" em espanhol e eu agradeci-lhe, em bom português, "Obrigado por ter feito este livro incrível". Ela sorriu, certamente orgulhosa por dar mais este miminho "Saramaguiano" aos fãs e poder dar a conhecer mais de José, o homem, que ficava tantas vezes soterrado debaixo do apelido como escritor.

 

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Da esquerda para a direita: Jéssica (Companhia Literária), Pilar del Rio, Sandra (say hello to my books),

Cristina (Books and Beers), Carolina (Holly Reader) e Sónia (Livraria Imperfeita). 

 

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Foi feita uma leitura de excertos das cartas por Marcello Urgeghe (a ler Saramago) e Mariano Marovatto (a ler Amado), também com interpretação de algumas músicas brasileiras e portuguesas por parte deste último. Foram momentos bonitos, tocantes e que nos fizeram realmente sentir a união destes dois países irmãos. No final, os dois abraçaram-se, como Amado e Saramago certamente teriam feito. Foram, também, abraçados por Pilar e acredito que todas as cerca de cinquenta pessoas que estavam naquela sala se comoveram. Fico feliz por ter estado presente. Este evento sim, acrescentou muito. E, quando terminou, ainda muita conversa saiu dali. Juntem cinco mulheres interessantes, com gosto pela Literatura e tanto mais, e ninguém as cala. (novamente #vivaoclube)

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À noite comecei a ler o livro. Não dava para esperar. Posso, desde já, dizer que me comove muito a admiração que tinham um pelo outro. A preocupação e respeito mútuos. Amado era dez anos mais velho que Saramago e começou a ter alguns problemas de saúde, que acompanhamos e percebemos aí, nas trocas de palavras de apoio, a amizade bonita que partilhavam. Noutras partes, sorrimos com o sentido de humor dos dois em relação a temas como o prémio Nobel ou qualquer acontecimento mais comum do quotidiano. Com o mar pelo meio, esticavam os braços para longos abraços traduzidos em palavras nestas cartas. 

 

Uma curiosidade gira é que tanto um como o outro assinam todas as cartas não só por eles, mas também pelas respectivas mulheres. Os votos, abraços e beijinhos são sempre feitos de casal para casal. Não acham bonito? Num mundo de egocentrismos, viver e socializar a dois é realmente um desafio. 

 

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Vejam também o vídeo da Cristina sobre a apresentação. 

 

08
Nov17

Uma grande novidade chega finalmente a Portugal!

Há uns meses soube da publicação de um livro chamado "Com o Mar por Meio". Para quem ainda não ouviu falar, prepare-se: é, nada mais nada menos, uma obra que reúne a correspondência trocada entre Saramago e Jorge Amado, durante os vários anos, já numa idade avançada, em que se tornaram bons amigos. Conheceram-se em 1990, em Roma, quando foram jurados do prêmio União Latina. Saramago tinha 68 anos e Jorge Amado, 78. Uma amizade tardia, mas com laços fortes, que resultou numa troca de ideias regular entre ambos, de 1992 a 1998, que só imagino ser do melhor que há. Além de cartas, este livro publica também "bilhetes, cartões e faxes, além de fotos do acervo pessoal dos autores". Um rebuçado gigante para quem gosta dos dois. Acho Saramago genial e tenho um carinho gigante por Jorge Amado, que tem um dos capítulos mais bonitos que li até hoje, chamado "As luzes do Carrossel", em "Capitães da Areia".

 

Paloma Jorge Amado, filha do escritor brasileiro, e Pilar del Río, mulher do autor português, são as responsáveis por detrás da iniciativa. A reunião da correspondência foi lançada em Julho, pela Companhia das Letras, no Brasil. O evento decorreu na Casa José Saramago, em Paraty, onde estava a decorrer a FLIP (feira internacional de literatura). 

 

Desde que li sobre isto, fiquei em pulgas e cheia de vontade de meter as mãos neste livro na hora. Mas depois de um tempo percebi que tinha sido editado apenas no Brasil. No sábado passado este assunto foi comentado no Clube dos Clássicos Vivos. Então o livro foi lançado há quatro meses no Brasil e em Portugal, país de Saramago, nada? Nem de propósito, esta semana saiu a notícia do seu lançamento neste cantinho à beira-mar plantado. 

 

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É no próximo dia 15 de Novembro, quarta-feira, às 18h30 na Fundação José Saramago, em Lisboa. Vou tentar ir!

Podem ver o evento no Facebook aqui

Dois artigos sobre o lançamento desta obra que vale a pena ler, em O Benetido e no Diário de Notícias

 

09
Dez16

Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago

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É difícil falar de um livro que mexe com a nossa cabeça. Que faz sentir medo, ansiedade, repulsa, nojo, compaixão... É difícil falar sobre um livro já tão lido e tão falado. É uma leitura que, por vezes, nos faz querer virar a cara para não ver, como fazemos nos filmes. Mas essa é a maravilha dos livros. Temos que olhar, ver, reparar em todos os pormenores que o autor imaginou, escreveu e deu ao mundo. 

 

É impossível não nos pormos, nem por um segundo, na posição daqueles personagens e pensar "E e fosse comigo? E se fosse na minha cidade, no meu país?". Dei por mim a pensar se conseguiria andar na minha rua, no meu bairro se não conseguisse ver. Se me sentiria perdida, se ia conseguir chegar aos lugares que queria. Dei por mim a pensar como ia reagir nas coisas mais básicas da vida como ir à casa de banho, dormir, comer e viver dentro de um espaço fechado com outros em igual condição. "Seria forte, fraca, ia tentar ajudar ou ser ajudada?". E a maior dúvida: sobreviveria?

 

Começamos a história com passos curtos, curiosos para saber o que sairá dali, desta permissa tão invulgar e simples, ao mesmo tempo, que é "E se, de repente, toda a gente cegasse?".

No início aquela sensação de "E se fosse comigo...?".
Depois, inevitavelmente, o pensamento "Coitados...que horror...deve ser uma sensação terrível."
A ansiedade: "Como é que eles se vão safar? Como vão conseguir viver naquelas condições?"
À medida que a história avança e que nos vamos apercebendo das condições precárias a que estão sujeitos, a ideia de que não iria aguentar...
Depois, o nojo, o quase vómito com os pormenores.
A revolta e a raiva com alguns personagens "Filhos da mãe dos cegos malvados!" e o sentimento de vingança.
A perplexidade: "Como é que é possível as pessoas serem tão más?".

Nas últimas setenta páginas do livro, a curiosidade para saber como irá terminar.

O respeito e admiração pela mulher do médico que só cresce durante todo o livro. É a minha personagem favorita!
No fim, a certeza de que os seres humanos, em condições extremas de sobrevivência, se comportam como verdadeiros animais.

 

Não há dúvida de que Saramago consegiu imaginar e montar com palavras um caos que seria real - ou pior - caso toda a população cegasse de repente, numa epidemia sem explicação, uma cegueira branca, luminosa, o "mal-branco" como é designado. O dia-a-dia torna-se uma verdadeira selva. O Estado Democrático e toda a organização social em que vivemos desmorona-se em poucas semanas. As pessoas começam a viver de uma forma quase primitiva, até pela comida têm que lutar. 

 

Nunca ficamos a saber o nome dos personagens. São referidos e caracterizados pela profissão ou por algum elemento próprio. Temos o médico, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o velho da pala preta, o rapazinho estrábico, o ajudante de farmácia, o ladrão, o motorista de táxi e por assim fora. Na verdade, é uma decisão fundamental do autor para transmitir a ideia de que, naquela realidade, o nome e o aspecto físico não interessam para nada.

 

Disse Saramago numa entrevista, há muitos anos:

"A história da humanidade é um desastre contínuo. (...) Coloquei-me a questão com uma limpídez absoluta: 'E se fossemos todos cgeos?'. Mas nós somos todos cegos... Cegos da razão! Porque não usamos a razão para defender a vida. Usamos a razão para destruí-la. (...) É contra isso que foi escrito o Ensaio sobre a Cegueira."

 

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Saramago escreve extraordinariamente bem, mas sem parecer que se sentou para escrever um livro. Escreve bem como se estivesse ali ao nosso lado, no sofá, a contar-nos uma história, com diálogos e comentários pelo meio que sentimos como se só nos tivesse a contar aquilo a nós. Foi o primeiro livro que li do autor. Ia a medo, confesso. Um prémio Nobel da Literatura, que muitos amam, outros não suportam, mas que todos admiram, no geral. De quem se critica ou elogia a falta de pontuação e parágrafos. Acho que foi isso que sempre me afastou dos livros dele. Agora, quero ler toda a sua obra, aos poucos. Em 2017 hão-de pousar mais dois ou três Saramagos na minha mesa de cabeceira.  

 

Tenho pena dos leitores do mundo que não falam português e não podem ler a obra na língua original. Certamente, nas traduções, se perde muito do que Saramago quis transmitir e como o quis fazer.

 

Gostei muito, muito deste livro. Entrou para a lista de melhores leituras do ano e de sempre. Marcou-me de uma forma especial, como acontece com todos os livros que mexem com os nossos sentimentos e com a nossa cabeça, e que sentimos que nos mudam como leitores. Este livro fez-me entrar na história e estar lá a viver aquele inferno com eles. Foi terrível, foi incómodo e só os grandes livros e autores conseguem isso. É um livro duro, intenso e inesquecível, que vai ficar comigo durante muito tempo. 

 

Título: Ensaio sobre a Cegueira

Autor: José Saramago

Edição: Caminho, 1995

Ano de publicação: 1995

 Nº páginas: 310