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SAY HELLO TO MY BOOKS

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Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago

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É difícil falar de um livro que mexe com a nossa cabeça. Que faz sentir medo, ansiedade, repulsa, nojo, compaixão... É difícil falar sobre um livro já tão lido e tão falado. É uma leitura que, por vezes, nos faz querer virar a cara para não ver, como fazemos nos filmes. Mas essa é a maravilha dos livros. Temos que olhar, ver, reparar em todos os pormenores que o autor imaginou, escreveu e deu ao mundo. 

 

É impossível não nos pormos, nem por um segundo, na posição daqueles personagens e pensar "E e fosse comigo? E se fosse na minha cidade, no meu país?". Dei por mim a pensar se conseguiria andar na minha rua, no meu bairro se não conseguisse ver. Se me sentiria perdida, se ia conseguir chegar aos lugares que queria. Dei por mim a pensar como ia reagir nas coisas mais básicas da vida como ir à casa de banho, dormir, comer e viver dentro de um espaço fechado com outros em igual condição. "Seria forte, fraca, ia tentar ajudar ou ser ajudada?". E a maior dúvida: sobreviveria?

 

Começamos a história com passos curtos, curiosos para saber o que sairá dali, desta permissa tão invulgar e simples, ao mesmo tempo, que é "E se, de repente, toda a gente cegasse?".

No início aquela sensação de "E se fosse comigo...?".
Depois, inevitavelmente, o pensamento "Coitados...que horror...deve ser uma sensação terrível."
A ansiedade: "Como é que eles se vão safar? Como vão conseguir viver naquelas condições?"
À medida que a história avança e que nos vamos apercebendo das condições precárias a que estão sujeitos, a ideia de que não iria aguentar...
Depois, o nojo, o quase vómito com os pormenores.
A revolta e a raiva com alguns personagens "Filhos da mãe dos cegos malvados!" e o sentimento de vingança.
A perplexidade: "Como é que é possível as pessoas serem tão más?".

Nas últimas setenta páginas do livro, a curiosidade para saber como irá terminar.

O respeito e admiração pela mulher do médico que só cresce durante todo o livro. É a minha personagem favorita!
No fim, a certeza de que os seres humanos, em condições extremas de sobrevivência, se comportam como verdadeiros animais.

 

Não há dúvida de que Saramago consegiu imaginar e montar com palavras um caos que seria real - ou pior - caso toda a população cegasse de repente, numa epidemia sem explicação, uma cegueira branca, luminosa, o "mal-branco" como é designado. O dia-a-dia torna-se uma verdadeira selva. O Estado Democrático e toda a organização social em que vivemos desmorona-se em poucas semanas. As pessoas começam a viver de uma forma quase primitiva, até pela comida têm que lutar. 

 

Nunca ficamos a saber o nome dos personagens. São referidos e caracterizados pela profissão ou por algum elemento próprio. Temos o médico, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o velho da pala preta, o rapazinho estrábico, o ajudante de farmácia, o ladrão, o motorista de táxi e por assim fora. Na verdade, é uma decisão fundamental do autor para transmitir a ideia de que, naquela realidade, o nome e o aspecto físico não interessam para nada.

 

Disse Saramago numa entrevista, há muitos anos:

"A história da humanidade é um desastre contínuo. (...) Coloquei-me a questão com uma limpídez absoluta: 'E se fossemos todos cgeos?'. Mas nós somos todos cegos... Cegos da razão! Porque não usamos a razão para defender a vida. Usamos a razão para destruí-la. (...) É contra isso que foi escrito o Ensaio sobre a Cegueira."

 

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Saramago escreve extraordinariamente bem, mas sem parecer que se sentou para escrever um livro. Escreve bem como se estivesse ali ao nosso lado, no sofá, a contar-nos uma história, com diálogos e comentários pelo meio que sentimos como se só nos tivesse a contar aquilo a nós. Foi o primeiro livro que li do autor. Ia a medo, confesso. Um prémio Nobel da Literatura, que muitos amam, outros não suportam, mas que todos admiram, no geral. De quem se critica ou elogia a falta de pontuação e parágrafos. Acho que foi isso que sempre me afastou dos livros dele. Agora, quero ler toda a sua obra, aos poucos. Em 2017 hão-de pousar mais dois ou três Saramagos na minha mesa de cabeceira.  

 

Tenho pena dos leitores do mundo que não falam português e não podem ler a obra na língua original. Certamente, nas traduções, se perde muito do que Saramago quis transmitir e como o quis fazer.

 

Gostei muito, muito deste livro. Entrou para a lista de melhores leituras do ano e de sempre. Marcou-me de uma forma especial, como acontece com todos os livros que mexem com os nossos sentimentos e com a nossa cabeça, e que sentimos que nos mudam como leitores. Este livro fez-me entrar na história e estar lá a viver aquele inferno com eles. Foi terrível, foi incómodo e só os grandes livros e autores conseguem isso. É um livro duro, intenso e inesquecível, que vai ficar comigo durante muito tempo. 

 

Título: Ensaio sobre a Cegueira

Autor: José Saramago

Edição: Caminho, 1995

Ano de publicação: 1995

 Nº páginas: 310