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SAY HELLO TO MY BOOKS

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UPDATE | 2017 Reading Challenge

Já passámos a primeira metade do ano e começamos a fazer balanços às leituras ou, pelo menos, a ver como estão os desafios que agarrámos este ano. Este foi o reading challenge anual que defini para mim mesma. Todos os anos faço um. Com 14 categorias, já fiz check em cinco (podiam ser seis, mas não quero repetir livros). Não chega ainda a metade, mas está tudo bem. Já sei exactamente os livros que vou ler para enquadrar nas restantes. 

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Um livro sobre o Holocausto - Se isto é um homem, Primo Levi

Um livro com uma mulher na capa - Trinta e Oito e Meio, Maria Ribeiro 

Um livro escrito por um autor antes dos 30 - leite e mel, Rupi Kaur 

Um livro de uma autora portuguesa - Os pásaros de seda, Rosa Lobato de Faria 

Reler um livro lido há mais de 10 anos - O Diário de Anne Frank, Anne Frank 

 

O Talentoso Mr. Ripley, Patricia Highsmith

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Há aqueles livros que sabemos à priori que vamos gostar. Além da capa maravilhosa da Relógio d'Água, o pouco que sabia sobre Tom Ripley interessava-me. Nunca tinha visto sequer o filme. E depois de ver a Tatiana Feltrin falar dele, trouxe-o para casa na FLL de 2016 e li-o em Março deste ano.

 

Publicado em 1955, é um thriller psicológico que nos guia pelos pensamentos mais macabros de Tom Ripley, ambicioso e manipulador. Sonha com dinheiro, sucesso e prestígio e é, por isso, que mal surge uma oportunidade para recomeçar a vida na Europa, não pensa duas vezes. Num bar, em Nova Iorque, é abordado por Herbert Greeleaf, empresário norte-americano, que o contrata - pensando que Tom era grande amigo do seu filho - para ir até Itália convencer Dickie Greeleaf a voltar para os EUA. Na verdade, Tom mal conhecia Dickie, mas aceitou a proposta com os olhos postos no pagamento e na possibilidade de conseguir fugir dos problemas e mudar de vida. Viaja, então, para Mongibello, em Itália, e é a partir daqui que a história se desenrola. Vamos descobrir aos poucos que Ripley, aparentemente tímido e educado, tem afinal um fundo negro e revoltado, insatisfeito com a vida. O seu grande talento é enganar os outros, é especialista em imitar pessoas - no jeito de falar, de vestir, de arrumar o cabelo - e até na falsificação de assinaturas. Acaba por conseguir enganar Dickie, que após estranhar este "amigo" que lhe aparece, passa a recebê-lo de braços abertos, apresentando-o a toda a gente na vila e a deixando-o ficar em sua casa, mesmo contra a vontade da namorada, Marge. Mas Tom, num misto de fascínio e inveja por Dickie, quer tomar o seu lugar, incorporando os seus tiques, roupas e modo de viver. Não vou contar mais para não entrar em spoilers mas posso dizer que Tom Ripley vai dar muitas voltas neste enredo, enrolando-se nas próprias mentiras e tentando safar-se de situações complicadas em que se mete. 

 

O mais engraçado é que, mesmo quando o círculo parece fechar-se, começamos a temer e a torcer por ele. Na verdade, queremos vê-lo dar a volta aos problemas, apesar de todos os crimes. E isto só é possível porque a autora nos faz entrar dentro da cabeça dele. O narrador segue o protagonista o tempo todo, sabemos sempre o que ele está a pensar, a planear e até os seus receios mais profundos. E isso é muito interessante. Acabamos a torcer por ele sabendo que é um criminoso e mau carácter. Estamos sempre à espera que seja apanhado, ao mesmo tempo que torcemos, em segredo, para que se safe. Achei a história muito bem montada. Dava por mim não só a pensar como Ripley ia sair daquelas embrulhadas, mas como é que a própria autora tinha envolvido tantos locais, pormenores e acontecimentos tão bem, que à medida que vamos avançando tudo se vai resolvendo e encaixando. Nem eu mesma imaginaria um caminho tão bom para o personagem. Patricia Highsmith soube encaminhar Tom Ripley numa história verosímel, interessante, de virar páginas atrás de páginas. Não caiu na tentação do facilitismo para explicar as coisas.  

 

Por fim, tenho que dizer que este livro foi como voltar a Itália. Ripley viaja por várias cidades italianas, algumas onde já estive, como Roma e Veneza, e bateu assim uma saudadezinha. 

 

Título: O talentoso Mr. Ripley

Autor: Patricia Highsmith

Edição: Relógio D´Água (2013)

Ano de publicação: 1955

 Nº páginas: 253

 

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Depois, vi finalmente o filme, de 1999. É bom, mas tem muitaaa coisa diferente do livro e não num sentido que me tenha agradado. Percebo que as adaptações são isso mesmo, adaptações. Mas acrescentarem personagens com muito peso na história que o livro não tem, mudarem radicalmente as atitudes e reacções de alguns personagens sobre certos acontecimentos ou, pior, alterarem completamente o final, não me deixa muito feliz. A personagem de Cate Blanchett não existe no livro e é a única mudança que não me faz tanta confusão. Percebo porque é que a introduziram no filme. Mas, por exemplo, no livro lemos como Tom se transforma para ficar parecido com Dickie. No filme não vemos isso, fica dificil acreditar que Tom (Matt Damon) se está a fazer passar por Dickie (Jude Law) e acabam por mudar radicalmente algumas cenas importantes da história por causa disso. E muito mais pormenores que se já leram e viram o filme vão perceber - não conto mais para não "spoilar". 

Portanto, mesmo que tenham visto o filme, não deixem de ler o livro, porque é bastante diferente. No livro entramos dentro da cabeça de Tom Ripley duma forma que o filme não consegue e, para mim, a história é muito mais vibrante quando lida. 

 

Leiam este bocadinho...

...e digam que lá que o Mário Zambujal não anima qualquer um. 

 

"No tempo dos bailes ali no 35, onde morava a viúva do Zé Viúvo, era toda a noite de sábado, eu a dar às unhas, o pessoal roçando-se. Bem os via. Uma noite, a mãe da Didelinha, uma ordinária - a mãe - foi puxar pela entusiasmada moça quando ela já ia peitos adentro do Gil Quirino. Há gente que só gosta de estorvar. Acabaram-se as festanças quando o Zé Viúvo veio pela casa, que era dele, emprestada aos sábados, unicamente. Fechou o clube e por causa disto: o Zé Viúvo casou-se com a tia. Um porradão de anos mais velha, a rua inteira na galhofa, olha o melro, quer herança. Tá quieto: esticou meses passados, a velha inda cá anda, firme que nem um eucalipto, ninguém lhe somou os anos, pelas minhas contas uns cento e quarenta".  

 

Mário Zambujal,

in Histórias do Fim da Rua 

Maratona Literária 12 horas

Ontem, domingo, decidi fazer uma maratona literária de 12 horas. Já vi várias pessoas de canais do booktube a fazer, principalmente maratonas 24 horas, mas acho que isso é demais e a questão de não dormir não me anima. Desde que vi a Tatiana Feltrin a dividir o tempo e fazer uma maratona de 24h dividida em dois dias, pensei que tinha que experimentar. Mas como não podia dedicar o fim de semana inteiro à leitura, decidi fazer só domingo para me testar a mim própria. 

 

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Então, estava tudo a postos, das 8h às 20h era só ler. Acordei cedo, coisa que raramente acontece aos domingos, mas como decidi que este era um fim de semana mais calmo (depois dos festejos da semana passada) foi tranquilo. Separei previamente os livros que iria ler durante o dia: O Ano do Sim, Nos Bastidores de Hollywood e Histórias do Fim da Rua. Um de ficção e dois não ficção. Dois autores portugueses e uma norte-americana. A ideia era ter metas a cada duas horas. "Durante duas horas vou ler este livro e tentar chegar a tal página". Assim  acordei, tomei o pequeno-almoço e às 8h e pouco comecei a ler, ali mesmo na cozinha enquanto bebia o meu café com leite e comia uma torrada. Comecei com a Shonda, que li até às 10h, hora em que peguei no Mário Augusto, já deitadinha na minha cama. Tenho que confessar que foi daqueles dias em que a cama foi rainha. Ronha máxima. Não estava sol, o dia nublado, não me apeteceu sequer ir ler para o jardim nem para perto do mar. E que bem que me soube. Entre banho e almoço pelo meio, fui lendo curiosidades sobre Hollywood até às 14h. A essa hora peguei nas histórias que o Mário Zambujal nos conta com tanta mestria. Onde nos revemos, ou a alguém que conhecemos, no meio dos seus personagens loucos e divertidíssimos. Sabem quando ficam felizes porque um autor tem uma obra extensa que ainda vão poder ler durante muito tempo? Sinto isso com ele. Acho que ali por volta das 16h30 adormeci um bocadinho - tenho que ser sincera. Já perto das 18h voltei a pegar na Shonda, mas já estava cansada, com os olhos quadrados de tantas páginas viradas - e já vos disse que tenho que ir ao oftalmologista? A minha vista está cada vez pior a ler. Por isso pousei a Shonda e acabei por ver um episódio de uma série na última hora de maratona. Às 20h terminou.

 

Confesso que no início do dia foi mais fácil estar mais concentrada. Ao final do dia já tudo  me distraía. Não desliguei o telemóvel e sempre que entrava uma mensagem, um telefonema eu parava. Fiz pausas também para ver as notícias do dia, para lanchar, para apanhar ar, para ver o que se passava nas redes sociais. E acho que sem pausas não dá. O cérebro precisa de uns descansozinhos. 

 

Valeu a pena? Posso dizer que sim, por ter sido um dia dedicado à leitura, como há muito não tinha. Tive tempo. Para mim e para ler. E isso às vezes é um luxo. E melhor, não estava comprometida com ninguém. Quis fazer esta experiência por mim, corresse bem ou mal, só dependia de mim. Mas não acho que vá repetir tão cedo uma maratona intensa destas. Porque chegamos a um ponto que parece que temos de ler porque estabelecessemos aquele objetivo e a finalidade da leitura não é essa. Mas não me deixei stressar com isso, tanto que, como vos disse, vi uma série pelo meio e até tirei uma sestinha. Acho que ter leituras diversificadas ajuda a cansar menos. Ir mudando de local de leitura também.

 

Mais uma vez verifico que sou uma leitora lenta. Leio devagar, saboreio as palavras, as frases, interiorizo as ideias que o autor quer transmitir. Quantas e quantas vezes releio parágrafos para tirar todo o sentido que ali está. Volto atrás, páro para pensar numa frase, continuo. Não sou uma leitora voraz. Já o sabia. Ainda assim, considero que consegui ler bastante, dada a minha média de leitura diária (que às vezes nem diária é). Li 101 páginas de O Ano do Sim. Li 109 páginas de Nos Bastidores de Hollywood. Li 111 páginas de Histórias do Fim da Rua. No total foram 321 páginas.  Para alguns pode ser pouco, para outros muito. Eu fiquei feliz, tendo em conta as minhas características pessoais como leitora. 

 

Por fim, posso dizer que é bem giro ir partilhando no Instagram e ter interacção de várias pessoas que também já leram aqueles livros, que dão opiniões, que dizem que também querem experimentar fazer uma maratona destas ou apenas que falam comigo naquelas horas porque sim. Obrigado.