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SAY HELLO TO MY BOOKS

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07
Fev18

A Vegetariana, Han Kang

IMG_8470.jpg(Fotografia tirada em Dezembro, com o mar das Caraíbas como cenário)

 

"Antes de a minha mulher se ter tornado vegetariana, sempre pensei nela

como alguém que não tinha rigorosamente nada de especial". 

 

É assim que começa este livro tão badalado nos últimos dois anos, desde que foi traduzido para língua inglesa, em 2016, e nesse mesmo ano ganhou o Man Booker International Prize (quase dez anos depois da sua publicação em 2007, na Coreia do Sul). Tudo o que ouvi sobre o livro despertou-me um interesse que, à partida, o título por si só não despertaria. Percebi que não era um livro sobre vegetarianismo puro e duro, e que havia um enredo mais complexo por trás. Sabia que a vida de uma família mudava a partir do momento em que a protagonista decidia tornar-se vegetariana. Não sabia o que esperar da história, mas certamente não era parecido com o que li. Não posso dizer que tenha adorado - como tanta gente adorou - apesar de lhe reconhecer valor.  Tem partes bastante originais, outras achei banais. E acho que a história se perde a meio. Parece que a autora tinha a ideia estruturada quando começou a escrever e depois foi-se perdendo, sem saber para onde ir. A permissa com que começa é muito boa, mas depois entra num decrescendo em que o final não tem a força do início. 

 

Yeong-hye é 'A' vegetariana. É à volta dela que a história se constrói, apesar de nunca conhecermos totalmente o que lhe vai dentro da cabeça. O livro está dividio em três partes e nenhuma é narrada por ela. A primeira parte é pelo marido, a segunda pelo cunhado e a terceira pela irmã, dando-nos três perspetivas diferentes. Vamos percebendo como a decisão de ser tornar vegetariana influenciou toda a família e o futuro de cada um. Mas, no fundo, nada do que se passou a seguir esteve diretamente ligado à decisão dela, mas sim a problemas mais profundos de relacionamentos, personalidades e egos. Gosto muito de ler sobre relações humanas e, por isso, gostei bastante da primeira e segunda partes do livro. Teria dado quatro estrelas se o resto da obra explorasse esse caminho. Mas depois a história perdeu-me. Não quero dar spoilers, por isso não vou revelar mais. Mas tudo o que veio a seguir pareceu-me muito surreal. Consigo ter sensibilidade para compreender certo tipo de distúrbios mentais, mas para mim houve muita coisa sem sentido nesta história. Nem o amor incondicional da irmã por ela me aqueceu o coração, não me tocou. E o irmão? O que trouxe à história? Personagem desnecessária, criada ninguém sabe bem porquê, tal e qual a ajudante de Yeong-hye no hospital. Li as últimas páginas já a bufar e sem paciência. E sim, percebi a mensagem que quis passar. Só não gostei por aí além. 

 

Também acho que o título não corresponde ao conteúdo e isso irritou-me. Li e vi tantas opiniões a focarem-se tanto na decisão de Yeong-hye em deixar de comer carne e que sofreu porque isso ia contra as "normas" da sociedade e bla bla bla...mas, sinceramente, acho que isso é o facto com menos importância neste livro. É uma questão relevante sim, mas fica completamente em segundo plano aqui. Porque percebemos que os problemas dela já vinham de trás, muito antes da decisão. Também se diz muito que é "a história de uma mulher com desejo de ser dona das suas vontades, de querer controlar o próprio corpo". Não concordo. Acho que toda a razão para se querer tornar vegetariana - e posteriormente uma árvore - da forma radical como o faz, e com a apatia que mostra ao longo de todo o processo, revela é alguém muito perturbado, com um sofrimento e depressão profundos. Esse sim, é o foco principal do livro, na minha opinião. Acho que descreve bem alguns aspectos relacionados com a Solidão. Gosto muito mais da face negra e depressiva das personagens tratada de forma intrínseca, do que estando associada à tal decisão. Os relacionamentos humanos, as reacções, as motivações mais profundas de um personagem é o que mais gosto de ler e descobrir. E isso é, para mim, o ponto alto do livro. 

 

"Vê os pingos da chuva a fustigarem a janela, com a cadência constante em que

só as pessoas habituadas à solidão reparam".

 

Título: A Vegetariana 

Autor: Han Kang

Edição: D. Quixote, 2016

Ano de publicação: 2007, Coreia do Sul 

 Nº páginas: 190

24
Jan18

O Rei de Havana, Pedro Juan Gutiérrez

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Não gostei deste livro. Nunca tinha ouvido falar do autor, nem sabia do que o livro tratava, portanto não tinha expectativas. Estava a poucas semanas de viajar para Cuba e queria ler um autor cubano, especialmente um livro que se passasse em Havana, para conhecer um pouco mais da cultura deles. Encontrei "O Rei de Havana" na biblioteca e decidi que era este que ia ler. A contracapa deixou-me curiosa, lê-se "Uma espécie de Bukowski do Caribe ou de Henry Miller de Havana", escrito pelo Tribuna. Fasquia lá no alto, portanto. Adoro Bukowski, isto só pode ser bom, pensei eu. Pois foi mau

 

Custou-me muito ultrapassar as trinta primeiras páginas. Andei a mastigá-las tempo demais. Forcei-me a continuar. É a história de Reinaldo, um miúdo de 17 anos que foge do reformatório, sem família - de cuja morte foi acusado - e vai fazendo o que pode para sobreviver nas ruas pobres de Havana. Pede esmola, rouba comida, mete-se com mulheres e homens que lhe possam dar um espacinho para dormir, um bocado de comida e alguma atenção. Passa por várias situações complicadas - chamaria aventuras, se não fosse apenas o instinto de sobrevivência a falar mais alto - e acompanhamos esta jornada que se transforma num ciclo vicioso, numa espiral de autodestruição. Apaixona-se. Tem relações com várias pessoas ao longo de todo o livro. Rei, o nome pelo qual responde, é violento, mas também sensível. Sobrevive a cigarros, rum, marijuana e as migalhas que lhe vão caindo no estômago. 

 

Até aqui tudo muito bem. Não fosse a escrita de Pedro Juan Gutierrez ser "desgarrada, cruel, autêntica" como vem descrito também na contracapa. Eu descreveria-a como crua e demasiado real - baixo nível até. Não posso transcrever aqui nenhuma passagem com medo de ferir susceptibilidades e pior, haver menores de idade a lerem isto. Mas posso dizer que nunca tinha lido nada tão explícito em termos sexuais. Não só do acto em si, como de expressões, sensações, emoções dele e de pessoas que o rodeiam. Mas de forma feia e básica demais. Calão e asneiras para dar e vender frase-sim-frase-não. Depois, achei muito repetitivo. Acontecimentos da história que se vão repetindo, diálogos muito iguais entre personagens diferentes. Já revirava os olhos. Sinto que 95% do livro foi andar sempre à volta do mesmo, mudando só de cenário, mas sem acrescentar nada. Para minha surpresa, não desgostei do final. Previsível, mas trabalhado de uma forma que não estava à espera. Analisando o todo, acredito que Pedro Juan Gutierrez escreveu sobre uma realidade que conhece bem - isso é visível - mas sem grande esforço para tornar a obra um bocadinho mais literária. 

 

Podia processar o autor pelas rugas de expressão que ganhei por ter passado a leitura toda com a testa franzida, enojada, incrédula e aborrecida com certas descrições, diálogos e pormenores. Se me pedissem para resumir o livro, seria algo como: sexo - miséria - sexo - prostituição - álcool - sexo - violência - sexo - fome - sexo - pobreza - sexo, num cenário apocalíptico.

 

O livro foi lançado em 1999 e a história passa-se nos anos 90. Não duvido que se vivesse assim em Havana. Estive lá, vi a miséria de perto, prédios em ruínas com pessoas a viver lá dentro, crianças a pedir dinheiro, miúdas a prostituirem-se, pessoas com roupas velhas, sujas e rotas, etc. Acredito que há vinte anos, antes de ser levantado o embargo económico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos EUA, a realidade fosse cem vezes pior. Em teoria, a realidade está bem representada. Na prática, o conteúdo é mau. Considerei-o uma das piores leituras de 2017. E leva duas estrelas em vez de uma, pelo simples facto de retratar um período e um estilo de vida em Havana, que acho estar fiel à realidade. 

 

                                                                          

Título: O Rei de Havana

Autor: Pedro Juan Gutierrez

Edição: Dom Quixote, 2000

Ano de publicação: 1999

 Nº páginas: 193

28
Set17

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, J.K. Rowling

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Alguns meses depois de ter lido Harry Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara dos Segredos, peguei no terceiro livro da série, com a certeza de que me ia saber muito bem voltar a este mundo mágico. Aqui levanta-se um bocadinho o véu sobre o passado da família de Harry Potter. Descobrimos mais pormenores sobre os seus pais, sobre as as amizades que tinham, sobre o que aconteceu no dia em que morreram, quem é culpado e quem não é. Acredito que ao longo dos vários livros sejam feitas mais descobertas sobre todos os mistérios que envolvem a família Potter. É esse o fio condutor que passa de livro para livro e nos deixa presos a esta história, além de ser delicioso conhecer a rotina, as particularidades e as peripécias que acontecem numa escola de magia. Percebo, hoje, o fascínio que Hogwarts desperta em tanta gente. 

 

Neste livro ficamos a conhecer melhor o funcionamento da prisão de Azkaban, aprendemos o que são DementorsPatronusAnimagus, conhecemos algumas passagens secretas de Hogwarts, torcemos no torneio de Quidditch e estamos sempre à espera do que vai acontecer a seguir. As personagens ganham profundidade aqui. Vamos conhecendo melhor cada uma, embora tenha pena de não ter visto mais da Professora McGonagall e do casal Weasley neste livro. Confesso que sempre achei a Hermione chatinha, desde o início da série, mas comecei a gostar mais dela no final deste volume. Sinto que o Harry está mais destemido, mais corajoso e mais confiante. Sempre gostei muito do Ron, e dos seus irmãos, e isso confirmou-se aqui também. Gosto da amizade dos três. Pura, com sinceridade e muito companheirismo, como as boas amizades devem ser. Sinto um enorme carinho por Dumbledore, pelo Hagrid, pelas corujas e todos os animais fantásticos que por lá andam, acho graça às figuras dos retratos, ao fantasma Peeves e aos Professores (a maioria, porque o Snape continua a irritar-me). Sinto estes livros como um bombom, aquele docinho no final da refeição que nos dá um verdadeiro prazer, sabem? 

 

Este livro teve um efeito interessante sobre mim. Sou pessoa de Verão, adoro o calor, sofro imenso com o frio e fico a sonhar com o regresso do tempo quente de Novembro a Abril. Adoro que Portugal tenha estes dias bons no Outono e, por mim, nunca descíamos dos 20º. Mas, enquanto lia esta história, fui ficando com vontade de ter uma mantinha em cima das pernas, de ir fazer um chá, acender umas velas e estar aconchegada no quentinho, enquanto chove lá fora. Fiquei com saudades do Natal, das luzes, da lareira acesa e dos doces da época. O bom é saber que ainda tenho mais quatro livros para ler até ao final do ano, que vão certamente apanhar esse clima.

 

Decidi que não vou ver os filmes só quando terminar os sete livros. Vou ver os três primeiros já. 

 

Título: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

Autor: J. K. Rowling

Edição: Editorial Presença, 2000

Ano de publicação: 1999

 Nº páginas: 411

20
Set17

O Vermelho e o Negro, Stendhal

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Na semana passada dediquei-me a este clássico francês do séc. XIX, obra escolhida para o Clube dos Clássicos Vivos. Fiz uma coisa que nunca faço antes de começar a ler um livro: fui pesquisar informação sobre a obra, o autor (caso nunca tenha lido nada dele) e tentar pôr-me a par de todo o contexto histórico de quando foi escrito. Sabia apenas que se tratava de um romance histórico, publicado em 1830, em França, e achei por bem saber mais antes de mergulhar 400 páginas que nos contam a jornada do protagonista Julien Sorel. Fugindo de spoilers, essa pesquisa ajudou-me muito a compreender todo o ambiente do enredo, principalmente no início. 

 

É um livro com um ritmo de leitura mais lento, pelo menos para mim, que pede atenção redobrada aos parágrafos, às expressões, às ideias que o autor quis contar. Por isso fui lendo no ritmo que o próprio livro ditava e gosto muito quando isso acontece, são eles que nos levam. É um daqueles clássicos que impunha respeito e, até, algum preconceito sobre ser "chato e pesado". Li-o de uma ponta à outra, sem nunca perder o interesse nem o ritmo. O século XIX é riquíssimo em histórias e acontecimentos que ditaram a evolução do século seguinte, interessantíssimo cultural e socialmente e, por isso, fiquei muito envolvida com a história.

 

O PROTAGONISTA 

Acompanhamos a jornada de Julien Sorel, desde que é o pobre filho de um simples camponês, em Verriéres, passando pelo seminário e, depois, tornando-se no braço direito de um importante marquês de Paris. Mas, mais do que a sucessão de acontecimentos na vida de Julien, acompanhamos a sua evolução enquanto homem, a nível de personalidade, sentimentos e compreensão do mundo, algo que tornou este livro inesquecível, para mim. No início chamei-lhe nomes, critiquei-o, considerei-o detestável, até começar a simpatizar e a torcer por ele, e chegar ao fim apenas com pena e compaixão. Tornamo-nos cúmplices do protagonista e, mesmo não concordando com o que ele faz, acabamos por compreendê-lo.

 

Julien é hipócrita assumido, egoísta, ambicioso, calculista e provocador. Sem qualquer sentimento sincero de amizade ou amor por alguém. Mesmo depois de terminar, não acredito que tenha amado ninguém. Queria apenas o que não podia ter e, assim que conseguia o que desejava, deixava de o querer. Era a conquista que lhe dava gozo, mas nunca estava satisfeito por muito tempo. Apesar da aparente segurança que quer transmitir, vivendo num clima de aparências, vamos conhecendo os seus receios e até fraquezas. O que o torna num personagem muito completo. Ainda assim, é uma sensação de falsa proximidade com o leitor, porque creio que apesar de entrarmos na sua cabeça em todos os momentos, nunca o ficamos a conhecer na totalidade. 

 

"Naquela singular criatura, quase todos os dias eram de tempestade."

 

 O AUTOR 

Stendhal vai conduzindo o leitor ao longo da obra. Considerada como um romance psicológico, conseguimos saber o que várias personagens estão a pensar, não só o protagonista. Achei interessante a crítica social aqui presente, pois numa sociedade com uma hierarquia fortemente estabelecida, Stendhal situou Julien em várias classes sociais e pôde, assim, alfinetar todas elas, desde os camponeses, ao clero, à nobreza e a monarquia. É um livro que realmente transcende o período em que foi escrito. O próprio Julien tem algumas particularidade de Stendhal como a pouca sorte no amor ou o pouco jeito para andar a cavalo. Dono de pensamentos liberais e admiração por Napoleão, assim como o seu protagonista, Stendhal é um dos pseudónimos utilizados pelo francês Henri-Marie Beyle. Gosto muito do facto de o narrador falar diretamente com o leitor durante toda a obra.

 

"Desde que não se troçasse nem de Deus, nem dos padres, nem do rei, nem das pessoas de posição,

nem dos artistas protegidos pela corte, nem de qualquer instituição; desde que não se dissesse bem dos jornais da oposição, nem de Voltaire, nem de Rousseau, nem de tudo o que permita um pouco de abertura; desde, sobretudo, que nunca se falasse de política, podia-se livremente comentar tudo."

 

O TÍTULO 

"O Vermelho e o Negro" já teve várias interpretações ao longo dos anos. A mais comum é "vermelho" ser referente às fardas militares da época napoleónica e "negro" às batinas próprias do clero, duas áreas em que Julien Sorel se viu dividido, pesando sempre qual seria aquela que lhe daria mais riqueza e prestígio. Mas, por outro lado, (e falámos disto no Clube) penso que podemos olhar para o título como sendo o vermelho do coração em estado puro e vivo, a cor da paixão em comparação com o negro da tristeza, da depressão, do sofrimento sempre muito presente na jornada de Julien. 

 

SRA. DE RÊNAL vs. MATHILDE

Será que as duas amaram Julien? E que foram as duas amadas por ele? Na minha opinião, o único sentimento de amor verdadeiro que vimos nesta obra foi da Sra. de Rênal por Julien. Mathilde é apenas uma miúda rica, mimada, caprichosa que só achou ter algum sentimento quando foi desprezada ou diminuída a nível de importância, como no final. Já Julien não creio que amou verdadeiramente nenhuma das duas. "Usou-as" quando lhe deram jeito, fosse para atingir certos fins de estatuto, por vingança dos homens que o rodeavam, por capricho também ou por uma ilusão nascida do fraco amor-próprio que as atenções delas lhe despertavam. 

 

A GRANDE LIÇÃO 

"É singular, contudo, que só tenha aprendido a arte de gozar a vida depois de lhe avistar o termo tão próximo". Não é preciso dizer mais nada. 

 

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Título: O Vermelho e o Negro

Autor: Stendhal

Edição: EDICLUBE 

Ano de publicação: 1830

 Nº páginas: 406

10
Set17

A Minha Pequena Livraria, Wendy Welch

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"Os bibliófilos sabem que os livros não são apenas ideias encurraladas entre capas,

mas artefactos, marcos na nossa vida".

 

Tenho como absoluta certeza que qualquer livro que fale de livrarias aquece o coraçãozinho de um bibliófilo. E este não é diferente. Wendy Welch dá-nos uma visão muito engraçada vs. assustadora do que é abrir uma livraria independente, contra tudo e todos, e faz-nos querer abrir uma também, seguindo os conselhos que nos deixa nestas páginas. Ela e o marido, Jack, mudaram-se para uma cidadezinha no interior dos EUA, chamada Big Stone Gap - com apenas cinco mil habitantes - cheios de vontade de mudar de vida, recuperar a sanidade mental perdida em empregos que não os faziam felizes e recomeçar do zero, rodeados de paz, amigos novos e muitos livros. Compraram uma vivenda grande, gastando as suas economias, com o objetivo de viver no andar de cima e abrir a livraria em baixo. E assim nasceu a Tales of Lonesome Pine Used Books, uma livraria de livros usados que nem eles tinham noção o quanto ia mudar a sua vida. 

 

Sem saberem bem no que se estavam a meter, conseguiram realizar um sonho, admitindo, mais tarde, a inexperiência inicial a gerir um negócio próprio. A autora partilha qual foi a reação inicial da comunidade, como foram ganhando clientes, descobrindo novas formas de fazer publicidade, sem custos, como fizeram novos amigos e também como se sentiram outsiders ali durante muito tempo. Conta-nos o que correu bem e o que correu menos bem, os pormenores a que devia ter dado mais atenção, os erros cometidos e as ideias que acabaram por salvar o negócio. Para além dos números, lucros e contas a pagar, tiveram que lidar com os mexericos de uma cidade pequena, a falta de clientes inicial, a desconfiança dos habitantes locais e até alguns maus tratos. Wendy conta-nos, de forma descontraída, todos os problemas de que os sonhadores nunca se lembram quando vão atrás do seu sonho. No início, nem livros suficientes tinham para abrir a livraria. Ficamos a saber como conseguiram arranjá-los e como foram fazendo crescer o negócio, ganhando a confiança dos habitantes locais e chegando a mais gente, de outras cidades. Ficamos a conhecer todas as boas e más surpresas que surgiram ao longo do tempo, e todos os novos amigos que entraram nas suas vidas por causa da livraria.

 

"Talvez a melhor coisas que os livreiros fazem pelo mundo não é vender histórias às pessoas,

mas escutar as histórias delas". 

 

É engraçado que estava à espera de um livro sobre livros mas, em vez disso, e como uma nota escondida no bolso de um casaco antigo, encontrei um livro sobre pessoas dos livros. Afinal de contas, quando se tem uma livraria, quem está atrás do balcão não é apenas vendedor, torna-se também psicólogo, ouvinte profissional e conselheiro de serviço. Sendo baseado em factos reais, mais força ganham as histórias contadas por Wendy sobre os clientes que por lá passam.

 

"Em abono da verdade, as histórias mais assustadoras, mais duras, mais tristes, mais importantes

que se encontram numa livraria não estão nos livros, estão nos seus clientes". 

 

Transversal a todo o livro é também a discussão sobre e-readers e livrarias online. A autora traz-nos várias reflexões sobre a utilidade e praticidade dos e-readers actualmente e questiona-se se poderão roubar o lugar ao papel, assim como se as livrarias online poderão acabar com as físicas. Na verdade (exactamente o mesmo que eu própria penso), há espaço para tudo. Continua a haver leitores que não dispensam o papel, assim como leitores que só lêem no digital; abrem-se lojas online, mas as físicas continuam presentes na vida das pessoas. Até porque a Internet nunca vai substituir o prazer de uma boa conversa cara-a-cara

 

"Os livreiros, pelo menos até conseguirem ser replicados online, são o motivo por que as pequenas livrarias ainda existirão. (...) As livrarias físicas são pontos de convergência para os espíritos e intelectos humanos. Os e-readers e as livrarias online não nos permitem contar a histórias por trás da compra de determinado livro". 

 

Foi uma boa surpresa. Bendita a hora em que encontrei o livro num alfarrabista, na Feira do Livro de Lisboa, a cinco euros (mesmo tendo sido publicado só há cinco anos) e o trouxe comigo. Sem grandes pretensões, é um testemunho sincero, envolvente e cativante, que ilustra o poder que os livros têm para unir as pessoas, o papel essencial possuem, não só para os leitores, mas na vida de uma comunidade. É uma história que nos recorda o poder transformador dos livros e, se lerem este, vão perceber porquê. É uma leitura fácil e fluída que nos deixa com vontade de ir abraçar a nossa estante e agradecer aos livros o bem que nos fazem.

 

"Sabiam que uma das primeiras coisas que a vítima de um incêncio substitui

é os seus livros preferidos de infância?

 

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Tales of Lonesone Pine Used Books - Fotografia da Livraria (Imagem retirada do Google)

 

 (3.5)

Título: A minha pequena livraria

Autor: Wendy Welch

Edição: Noites Brancas (Clube do Autor), 2013

Ano de publicação: 2012

 Nº páginas: 275

08
Set17

Travessia de Verão, Truman Capote

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Capote morreu em 1984. Travessia de Verão foi publicada pela primeira vez em 2006. Confusos? Na verdade, é mais um daqueles casos polémicos e divisores de opiniões em que terceiros publicam obras que não sabemos ao certo se os autores gostariam de ver tornadas públicas (como o Vai e Põe uma Sentinela, de Harper Lee). Será ético? O que aconteceu foi o seguinte: Capote começou a escrever este livro em 1943, mas acabou por deixá-la de lado quando as suas atenções se viraram para aquela que seria a sua estreia literária, "Outras Vozes, Outros Quartos", publicada em 1948. Apesar disso, Capote continuou a retocar aquela obra durante alguns anos até a pôr definitivamente de parte. Em 1966, depois do sucesso estrondoso de "A Sangue Frio" (um dos meus preferidos de sempre), Capote deixou o apartamento onde vivia em Brooklyn, abandonando todo o seu recheio, dando ordens ao porteiro para deitar no lixo o que tivesse ficado para trás. Não sei que onda divina passou pela cabeça do dito porteiro na altura, mas a verdade é que "salvou" uma caixa cheia de papéis e documentos e guardou-a consigo. Caixa essa que passou incógnita durante décadas, até à morte do senhor em 2004, quando um parente encontrou a caixa e decidiu vendê-la à Sotheby's que, por sua vez, pôs em leilão aquele espólio desconhecido de Capote, que incluía manuscritos de várias obras publicadas, cartas, fotografias e aquilo que parecia ser um romance inédito: quatro cadernos de escola e sessenta e duas páginas de notas que formavam o manuscrito de Travessia de Verão. O Fundo Literário Truman Capote detinha direitos de publicação de todas as obras de Capote e acabou por convencer a Biblioteca Pública de Nova Iorque, onde outros manuscritos e documentos do autor estão guardados, a comprar o resto dos documentos. 

 

Romance com pouco mais de cem páginas, passado em Nova Iorque logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, conta a história de Grady McNeil, jovem de uma família rica, prestes a completar 18 anos, que os pais deixam sozinha durante o Verão, no apartamento onde vivem na 5ª Avenida, enquanto viajam pela Europa. Grady acaba por se envolver num romance com um judeu que vive em Brooklyn, um pouco mais velho, e que à primeira vista não parece ser o melhor para ela. Lembra-vos alguma comédia romântica de domingo à tarde? Pois. Mas esta foi escrita há 70 anos, quando a sociedade, as mentalidades, os hábitos e o socialmente aceitável não eram o que são hoje. Antes de qualquer comédia romântica de adolescentes ser pensada para cinema, já Capote escrevia uma. E bem. Uma história de amor, de juventude e de amor na juventude. Tão actual que podia ter sido escrita a semana passada. Tão actual que nos parece banal, mas não vamos esquecer-nos que foi escrita em 1943. E, por isso mesmo, o final surpreendeu-me. Deixa à imaginação de cada um, apesar de se perceber o que aconteceu. 

 

São 115 páginas, uma história curta, talvez até curta demais. Tenha pena que Capote não tenha aprofundado mais os personagens, não os tenha feito evoluir como poderia, não tenha desenvolvido e tornado mais complexo o enredo. Gostava de saber mais sobre a família de Clyde, o namorado - temos um cheirinho, bem bom por sinal, mas não passa disso - gostava de saber mais sobre os seus amigos, gostava de ver aprofundada a relação de Grady com a irmã, gostava de ver Peter, o amigo-apaixonado mais envolvido no final, enfim... A história acaba por ser demasiado rápida para deixar marcas a longo prazo, ainda que nos consiga envolver no momento da leitura e mostrar-nos como um romance simples, tão simples, pode ser bom. Porque Capote tinha uma escrita poética, um talento enorme em construir frases bonitas umas atrás das outras e assim formar uma obra segura, ainda que a escrita estivesse mais verdinha e menos polida nesse início de carreira. Ia sem expectativas, sem ter ouvido falar muito da obra, apenas com a certeza de que quero ler tudo de Capote. Foi uma boa surpresa.

 

Título: Travessia de Verão

Autor: Truman Capote

Edição: Dom Quixote, 2007

Ano de publicação: 2006

 Nº páginas: 115

26
Jul17

O Ano do Sim, Shonda Rhimes

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- Tu nunca dizes sim a nada. 

 Bastou esta frase, dita pela irmã num jantar de Thanksgiving, para que Shonda Rhimes tivesse um click e percebesse que tinha que mudar muita coisa. Ao longo dos anos tinha-se dedicado apenas ao trabalho e às filhas adotivas (de quem é mãe solteira) e tinha deixado o resto do mundo de lado, incluindo a própria saúde. Tinha medo de falar em público, de dar entrevistas, de grandes eventos, de sítios com muita gente e de ter os holofotes virados para si. Até que a irmã lhe disse essa simples frase, enquanto cortava cebolas na cozinha, que se tornou num verdadeiro "abre olhos" para Shonda. Decidiu passar um ano a dizer "Sim" a tudo o que antes respondia automaticamente "não". Fosse entrevistas nos maiores programas de TV, como Jimmy Kimmel e Oprah, fosse falar em público em cerimónias de entregas de prémios, fazer discursos em formaturas de Universidades, ou simplesmente a dizer "sim" à sua saúde em resposta à obesidade. Dizer "sim" a conversas difíceis em resposta a amizades tóxicas. Dizer sim a diversão, para além do trabalho. Dizer sim a tirar um tempo para brincar com as filhas. E isso mudou a vida dela. E são essas experiências que nos conta neste livro. 

 

"Perdermo-nos não acontece de repente. Perdermo-nos acontece um "não" de cada vez.

Não a sair esta noite. Não a rever aquela colega da universidade. Não a ir àquela festa. Não a tirar férias.

Não a fazer uma nova amiga. Perdermo-nos acontece um quilo de cada vez.

Quanto mais trabalhava, mais tensa andava. Quanto mais tensa andava, mais comia". 

 

Maaas (há sempre um mas) o livro não foi bem o que eu esperava. Tem reflexões interessantes, conselhos pertinentes e relatos de experiências que nos podem motivar a sair do conformismo e fazermos mais por nós próprios. Mas também tem muuuita palha. Tanta palha!!! Além de que repete várias vezes as mesmas ideias. Chega a ser um bocadinho aborrecido em certas partes. É, apenas, um livro engraçado em que ficamos a conhecer mais sobre uma mulher, negra, que conseguiu marcar o seu lugar num mundo de homens (brancos), conseguindo ainda levar para a televisão uma grande diversidade de personagens, que gerou bastante polémica, e pouco vista até então. Desde várias raças a todos os gostos sexuais, nas suas séries há de tudo. Quem acompanha Anatomia de Grey, por exemplo, sabe do que estou a falar. E é muito interessante entrar dentro da cabeça criadora deste mundo e de personagens tão icónicas como Meredith Grey e Christina Yang. Talvez por isso lhe tenha dado três estrelas (arrancadas a ferros). Entramos um bocadinho dentro de Shondaland (a sua produtora) e para quem é fã de Grey's Anatomy, Scandal e How to get away with murder isso tem algum significado. 

 

"Isto é quem sou. Silenciosa. Calada. Interior. Mais confortável com livros do que com situações novas.

Satisfeita por viver dentro da minha imaginação." 

 

Shonda confessa que "Christina Yang" era a sua voz no mundo. Tudo o que tinha receio de dizer ou fazer, punha a personagem a dizê-lo e fazê-lo. Sem medos. Também gostei, particularmente, de uma parte em que disserta sobre as amizades verdadeiras. Amizades que a vida se encarregou de autoselecionar. Deixou os bons, foi levando os tóxicos, os que não valiam a pena, aqueles que desistem de nós só porque ouvem uns "nãos". Aqueles que se aproveitam e que só lá estão porque precisam. Shonda mudou com o Ano do Sim, ficou mais aberta, mais disponível para a vida, mas também menos "capacho" dos outros. E com isto perdeu amizades. 

 

"Hoje vejo as pessoas pelo que são. E por quem sou com elas. Porque não se trata apenas

de me rodear de pessoas que me tratam bem. Também é rodear-me de pessoas cujos autoestima,

autorespeito e valores me inspirem a elevar o meu próprio comportamento."

 

Mas também faz sentido dizermos "sim" a quem vale a pena. Vamos adiando aquele café prometido há tanto tempo, vamos adiando aquele telefonema, aquele jantar, aquela conversa...até que o tempo passa e fica cada vez mais dificil retomar contacto. Porque a conversa já não flui tão bem, porque já se passou tanta coisa entretanto. E as pessoas vão-se afastando. Já aconteceu comigo. E com vocês também, certamente. Vamos dizendo "não" às vezes por preguiça, cansaço, estupidez, e a vida encarrega-se de ir fechando portas a cada "não" que damos. Acho que esta foi a parte que me fez mais sentido do livro. 

 

Concluindo, Shonda podia transmitir a mesma mensagem em metade das páginas. Também não fiquei com uma grande impressão dela como pessoa. Achei-a arrogante, convencida e até um pouco cliché, tentando não sê-lo. Mas fica o conselho "Sejam fazedores, não sonhadores" e a ideia de que qualquer pessoa que vos diga que está a fazer tudo perfeitamente bem é mentirosa. Toda a gente precisa de ajuda. Trabalhar em equipa, seja no emprego ou em casa, é sempre muito mais compensador. E aceitar que somos o melhor que temos, abrir um sorriso e dizer "sim" à vida. 

 

"Começo a apreciar os elogios. O facto de alguém se deter para me fazer um elogio significa algo para mim. 

Ninguém é obrigado a elogiar-nos. Fazem-no por gentileza. Fazem-no porque querem.

Fazem-no porque acreditam no elogio. Por isso, quando negamos o elogio de alguém,

estarmos a dizer-lhes que estão errados, que perderam o seu tempo.

Questionamos o seu gosto e a sua avaliação. Estamos a insultá-los.

Se alguém quiser elogiar-te, deixa-o elogiar-te."

 

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Título: O Ano do Sim

Autor: Shonda Rhimes

Edição: Marcador (2016)

Ano de publicação: 2015

 Nº páginas: 254