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SAY HELLO TO MY BOOKS

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Travessia de Verão, Truman Capote

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Capote morreu em 1984. Travessia de Verão foi publicada pela primeira vez em 2006. Confusos? Na verdade, é mais um daqueles casos polémicos e divisores de opiniões em que terceiros publicam obras que não sabemos ao certo se os autores gostariam de ver tornadas públicas (como o Vai e Põe uma Sentinela, de Harper Lee). Será ético? O que aconteceu foi o seguinte: Capote começou a escrever este livro em 1943, mas acabou por deixá-la de lado quando as suas atenções se viraram para aquela que seria a sua estreia literária, "Outras Vozes, Outros Quartos", publicada em 1948. Apesar disso, Capote continuou a retocar aquela obra durante alguns anos até a pôr definitivamente de parte. Em 1966, depois do sucesso estrondoso de "A Sangue Frio" (um dos meus preferidos de sempre), Capote deixou o apartamento onde vivia em Brooklyn, abandonando todo o seu recheio, dando ordens ao porteiro para deitar no lixo o que tivesse ficado para trás. Não sei que onda divina passou pela cabeça do dito porteiro na altura, mas a verdade é que "salvou" uma caixa cheia de papéis e documentos e guardou-a consigo. Caixa essa que passou incógnita durante décadas, até à morte do senhor em 2004, quando um parente encontrou a caixa e decidiu vendê-la à Sotheby's que, por sua vez, pôs em leilão aquele espólio desconhecido de Capote, que incluía manuscritos de várias obras publicadas, cartas, fotografias e aquilo que parecia ser um romance inédito: quatro cadernos de escola e sessenta e duas páginas de notas que formavam o manuscrito de Travessia de Verão. O Fundo Literário Truman Capote detinha direitos de publicação de todas as obras de Capote e acabou por convencer a Biblioteca Pública de Nova Iorque, onde outros manuscritos e documentos do autor estão guardados, a comprar o resto dos documentos. 

 

Romance com pouco mais de cem páginas, passado em Nova Iorque logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, conta a história de Grady McNeil, jovem de uma família rica, prestes a completar 18 anos, que os pais deixam sozinha durante o Verão, no apartamento onde vivem na 5ª Avenida, enquanto viajam pela Europa. Grady acaba por se envolver num romance com um judeu que vive em Brooklyn, um pouco mais velho, e que à primeira vista não parece ser o melhor para ela. Lembra-vos alguma comédia romântica de domingo à tarde? Pois. Mas esta foi escrita há 70 anos, quando a sociedade, as mentalidades, os hábitos e o socialmente aceitável não eram o que são hoje. Antes de qualquer comédia romântica de adolescentes ser pensada para cinema, já Capote escrevia uma. E bem. Uma história de amor, de juventude e de amor na juventude. Tão actual que podia ter sido escrita a semana passada. Tão actual que nos parece banal, mas não vamos esquecer-nos que foi escrita em 1943. E, por isso mesmo, o final surpreendeu-me. Deixa à imaginação de cada um, apesar de se perceber o que aconteceu. 

 

São 115 páginas, uma história curta, talvez até curta demais. Tenha pena que Capote não tenha aprofundado mais os personagens, não os tenha feito evoluir como poderia, não tenha desenvolvido e tornado mais complexo o enredo. Gostava de saber mais sobre a família de Clyde, o namorado - temos um cheirinho, bem bom por sinal, mas não passa disso - gostava de saber mais sobre os seus amigos, gostava de ver aprofundada a relação de Grady com a irmã, gostava de ver Peter, o amigo-apaixonado mais envolvido no final, enfim... A história acaba por ser demasiado rápida para deixar marcas a longo prazo, ainda que nos consiga envolver no momento da leitura e mostrar-nos como um romance simples, tão simples, pode ser bom. Porque Capote tinha uma escrita poética, um talento enorme em construir frases bonitas umas atrás das outras e assim formar uma obra segura, ainda que a escrita estivesse mais verdinha e menos polida nesse início de carreira. Ia sem expectativas, sem ter ouvido falar muito da obra, apenas com a certeza de que quero ler tudo de Capote. Foi uma boa surpresa.

 

Título: Travessia de Verão

Autor: Truman Capote

Edição: Dom Quixote, 2007

Ano de publicação: 2006

 Nº páginas: 115

A sangue frio, Truman Capote

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Li-o em Janeiro deste ano e até calhou bem porque foi o mês em que completou 60 anos. Para começar digo já que se tornou num dos meus livros preferidos de sempre.

 

Temos um assassinato múltiplo numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos, em 1959 (Toda uma família morta por dois criminosos, sem razão aparente e de forma cruel) e temos a caça caça aos assassinos enquanto se tenta compreender o que lhes vai na cabeça. São estes os ingredientes deste livro que, mais uma vez, nos mostra que às vezes a realidade supera a ficção. 

 

Truman Capote era jornalista. Foi atrás de uma notícia que leu sobre o assassinato de quatro membros de uma família, em Holcomb, uma cidadezinha no estado do Kansas. Um notícia que podia não ter passado disso mesmo... Mas Capote investigou, pesquisou, questionou e escreveu aquela que dizem ser a primeira obra conhecida como "romance de não-ficção" - ou “jornalismo literário”, como também chamam. 

 

Sabemos, à partida, que há uma família assassinada na sua própria casa e sabemos quem são os culpados: Perry Smith e Richard Hickok. Não é spoiler para ninguém. O verdadeiro enfoque não é “Quem matou?”, mas sim “Como?” e “Porquê?”. E, mesmo sabendo como termina a história, a forma como Capote nos corta a respiração ao relatar certos acontecimentos é notável. 

 

Desde o crime até à execução dos assassinos, a obra faz-nos entrar no ambiente de Holcomb, conhecer os seus habitantes, os costumes e as mentalidades da época. Capote soube utilizar o seu talento não só para escrever, mas também no trato social com as dezenas de pessoas envolvidas no crime, direta ou indiretamente. Avisa-nos, no início do livro: "O material contido neste livro não é produto da minha observação direta. Foi colhido em relatos oficiais ou é fruto de entrevistas com as pessoas envolvidas no caso".  "A intensa relação que Capote estabeleceu com as suas fontes foi determinante para o êxito da obra. Além de passar mais de um ano em Holcomb, investigando e conversando com moradores, aproximou-se dos criminosos e conquistou a sua confiança. Traçou um perfil humano e eloquente dos dois «meninos», como costumava chamar-lhes", diz a sinopse da obra. 

 

Demorou cerca de seis anos a terminar o livro. Não só pelas demoradas entrevistas e por ter que organizar todas as informações, mas porque só em 1965 (seis anos depois do crime) é que o caso ficou encerrado de vez. 

 

Aliás, há quem diga que Capote não foi totalmente imparcial nos factos narrados quanto a Perry Smith. Dizem as más-línguas que o autor estava apaixonado pelo criminoso. Certo é que passou muito tempo com eles e todos esses anos de convivência levaram a que se envolvesse no caso. Dizem que, ao terminar o livro, tinha as mãos trémulas e os olhos em lágrimas. O parágrafo final é de uma beleza tocante no meio dos factos pesados que são relatados nas últimas páginas.

 

Capote dedica grande parte da narrativa à descrição das vítimas, os quatro membros da família Clutter (os pais, a filha Nancy e o filho Kenyon). Estes são apresentados minuciosamente ao leitor, que entra dentro do seu quotidiano, gostos, manias e forma de viver. Também direciona a atenção do leitor para a vida de Perry Smith e Richard Hickok, os autores do crime, que cresceram num contexto social complicado e que nos faz entender o que os motivou àquela atrocidade. Vou dizer até que Capote humaniza os assassinos. Damos por nós a tentar compreender a sua forma de pensar e, até a ter pena da vida madrasta que lhes calhou em sorte.

 

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Foto: Richard Hickok e Perry Smith (criminosos)

 

Toda a obra é rica em detalhes, em conteúdo. A forma como Capote nos faz perceber a passagem das horas no derradeiro dia do crime, é espetacular. A maneira como nos mostra vários ângulos do que aconteceu e as diversas reações na cidade é genial. 

 

E garanto que não há NINGUÉM que comece a ler o livro e não vá rapidamente ao Google procurar imagens dos assassinos e da família Clutter. É aquele lado voyeur que todos temos. Foi também no Google que encontrei uma fotografia que Capote refere no livro. Os dois criminosos a rirem-se à saída do tribunal depois de terem conhecido a sentença, que lhes valeu a pena de morte. 

 

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A minha experiência de leitura com este livro foi incrível. Não conseguia pousá-lo. "Só mais uma página" e assim foi até ao final. Cada vez mais in love com a escrita dele, que nos agarra, que é tão simples e complexa ao mesmo tempo. Capote é mestre. Se com "Boneca de Luxo" não fiquei rendida à sua escrita, com "A sangue frio", fiquei fã. Há alguns livros - raros - que sabemos que vamos adorar, mesmo antes de virarmos a primeira página. "A sangue frio" foi um deles. E não estava enganada. 

 

Agora vou a correr ver o filme "Capote", que fez o Philip Seymour Hoffman ganhar o Óscar de Melhor Actor em 2006. E acabo aqui este post, porque por mim escrevia mais 7635446 linhas sobre este livro.

 

Sinopse: 

A Sangue Frio conta a história da morte da família Clutter, em Holcomb, Kansas, e dos autores da chacina. Capote decidiu escrever sobre o assunto ao ler no jornal a notícia do assassinato da família, em 1959. Quase seis anos depois, em 1965, a história foi publicada em quatro partes na revista The New Yorker. Além de narrar o extermínio do fazendeiro Herbert Clutter, de sua esposa Bonnie e dos filhos Nancy e Kenyon –uma típica família americana dos anos 50, pacata e integrada na comunidade–, o livro reconstitui a trajectória dos assassinos. Perry Smith e Dick Hikcock planearam o crime acreditando que se apropriariam de uma fortuna, mas não encontraram praticamente nada. Perry era um sonhador. Cresceu de uma forma conturbada e violenta, e achava que a vida lhe tinha dado golpes injustos. Dick, considerado o cérebro da dupla, queria apenas arrebatar o dinheiro e desaparecer. Presos e condenados, ambos morreram na forca em 1965.

 

Título: A sangue frio

Autor: Truman Capote

Edição: Visão (Colecção Lipton - Mestres Policiais), 2000

Ano publicação: 1966

 Nº páginas: 319

 

Boneca de Luxo, Truman Capote

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Não há quem não conheça o filme "Breakfast at Tiffany's". É um dos clássicos de Hollywood e lançou a diva das Divas para o estrelato eterno: Audrey Hepburn. Queria ver o filme (vergonha da vida, nunca tinha visto), então decidi ler primeiro o livro. Foi uma das primeiras leituras deste ano. "Boneca de Luxo" foi a primeira obra que li de Truman Capote. É um livro pequeno, não chega a cem páginas. O melhor exemplo de que nem sempre é preciso escrever um calhamaço para contar uma boa estória. 

 

"A nossa casa é onde nos sentimos em casa. E eu ainda estou à procura". 

 

Gostei da Holly Golightly, a personagem principal, que muitos dizem ser uma versão feminina do próprio Capote, uma personagem quase autobiográfica. Capote gostava de festas, de boa vida, de luxo e conhecia muita gente famosa, atores de Hollywood, etc. Holly é assim. Gosta de estar em ambientes bonitos, com classe, como a joalharia mais famosa de Nova Iorque, Tiffany's. Gosto de personagens femininas fora do comum, diferentes, neuróticas, pouco convencionais. Mas ainda que tendo gostado, não me consegui identificar-me ou ganhar afinidade com ela. Li a história, gostei de a ler e foi só isso. Não era bem o que estava à espera. Nem sei bem o que esperava. Acontece, quando ouvimos falar muito de alguma coisa. Achei que as relações humanas não tinha grande profundidade. Não me consegui envolver com os personagens. E por isso que dei três estrelas. 

 

Achei curioso o facto de não ficarmos a saber muitos pormenores sobre quem nos conta a história. Um homem, escritor e jornalista (tal como Capote) que se torna vizinho e amigo de Holly e que a tenta ajudar em diversas ocasiões. Apenas isso. Não sabemos nome, idade ou profissão. E ao contrário do filme, o livro mostra-nos uma história sobre a amizade, ou o fascínio que se cria por alguém que mal se conhece. Mas o livro deixou-me triste. Melancólica, talvez. O desapego dela é evidente. Vive numa casa vazia, com tudo o que possui na vida fechado em caixotes. Todo o livro passa uma ideia de abandono e solidão, como consequência de uma vida em busca de luxo e dinheiro. 

 

Infelizmente achei que a tradução desta edição do Público deixa um bocadinho a desejar. Traduções literais que, por vezes, dão um toque pouco real às expressões utilizadas. Diálogos que soam a falso, porque ninguém na vida real fala assim. Quero ler o original, em inglês. 

 

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Depois vi o filme. E surpreendi-me. Gostei muito mais do filme que do livro, até porque há diferenças de peso. Se no livro, o casal Holly/narrador cria apenas uma amizade, no filme há todo um romance envolvido. E obviamente que o final é completamente diferente. 

 

Uma curiosidade engraçada é que, no livro, Holly tem o cabelo loiro, quase platinado, "cor de baunilha" como o narrador afirma a dada altura e olhos "claros como água da chuva". Como sabemos, Audrey Hepburn é o oposto. Hoje não imaginamos o filme com outra Holly que não ela, mas a verdade é que primeira opção para o papel foi Marylin Monroe, que recusou depois de ter sido aconselhada pelo manager de que interpretar uma prostituta seria mau para a sua carreira. Engraçado que, ao ler o livro sem nunca ter visto o filme, foi exatamente uma Marilyn que imaginei como Holly. A ideia que tenho da Sra. Monroe na vida real, é tal e qual a Holly do livro (tirando a parte da prostituição). Mas depois de ver o filme, tenho a certeza que ninguém faria tão bem o papel como Audrey Hepburn. Aliás, ela É o filme. 

 

Sinopse: 

Holly Golighly é mais do que uma boneca de luxo. Deslumbrante, espirituosa e ternamente vulnerável, inquietando as vidas dos que com ela se cruzam, é retratada por Truman Capote em Breakfast at Tiffany’s (Boneca de Luxo), um romance tocante e singelo sobre a amizade, que constitui uma autêntica história de sedução. Verdadeiro clássico da literatura americana contemporânea, nele se inspirou Blake Edwards para o filme homónimo protagonizado por Audrey Hepburn.

 

 

Título: Boneca de Luxo

Autor: Truman Capote

Edição: Público - Colecção Mil Folhas, 2002

Ano publicação: 1958

 Nº páginas: 96