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SAY HELLO TO MY BOOKS

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Se isto é um homem, Primo Levi

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"...já apagados nas almas antes da morte anónima." 

 

Já li várias opiniões de quem adora este livro e de quem, dentro das obras sobre o Holocausto, não o tem nos preferidos. Percebo porquê. É um livro mais factual, menos emotivo. Primo Levi em nenhum momento deixa de ser objectivo nos factos que nos conta dos meses que viveu em Auschwitz. Não recorre ao drama, a lamentações ou queixumes. Limita-se a contar, de forma nua e crua, como era o dia-a-dia no "Lager", para quem teve a "felicidade" de não ser seleccionado para as câmaras de gás. 

 

"Toquei o fundo. (...) Passados quinze dias da chegada, já sofro da fome regulamentar,

a fome crónica desconhecida dos homens livres (...), o meu próprio corpo já não me pertence:

tenho o ventre inchado e os membros emagrecidos, o rosto inchado de manhã e encovado à noite;

quando ficamos sem nos ver por três ou quatro dias, temos dificuldade em reconhecer-nos". 

 

Gostei muito. Já conhecia alguns factos, outros foram uma descoberta. Não posso deixar de dizer que o meu capítulo preferido é o último, "História de dez dias". Dentro de todo o horror, foi o que mais me impressionou. A resiliência de um grupo de prisioneiros, doentes, fracos, para sobreviver durante mais de uma semana, quando o campo já tinha sido deixado ao abandono pelos alemães, já não havia qualquer tipo de ordem e as condições eram ainda piores do que quando as SS estavam ao comando. É impressionante a força de vontade e o companheirismo que os fez não ficar de braços cruzados à espera da morte, deixando-se subumbir à fome e ao frio. Enquanto lia estas últimas vinte páginas, só me vinha à memória o estado de calamidade da cidade que Saramago descreve no "Ensaio sobre a cegueira". Mas isso era ficção. 

 

"O Lager, acabado de morrer, apresentava-se em decomposição. Já não havia água nem electricidade, janelas e portas escancaradas batiam ao vento, as cinzas do incêndio voavam alto e para longe. Ao efeito das bombas juntava-se o efeito dos homens: esfarrapados, caídos, esqueléticos (...) já incapazes de dominar as suas vísceras, sujaram por todo o lado, poluindo a preciosa neve, única fonte de água agora". 

 

Naquele lugar, os homens deixavam de se sentir homens. Já nada têm dentro deles, a não ser um vazio imenso, olhos inexpressivos, indiferença sobre viver ou morrer, sem cabelo, sem roupa, sem privacidade, sem voz. Sem direito a uma refeição digna, a cuidados médicos decentes, ou mesmo a respostas às mais simples questões. São objetos descartáveis quando deixam de ter utilidade. Os nazis conseguiam, com toda a violência, regras e leis dos campos, desumanizar os homens que ali entravam. 

 

Os relatos de Primo Levi, na primeira pessoa, permitem-nos entrar na rotina do "Lager". A alvorada às 4h da manhã, o trabalho escravo à chuva, à neve e ao vento, rações minímas de comida, a divisão de cama com desconhecidos, o saber roubar para sobreviver, a roupa suja, o pensamento constante de quem não sabe se estará vivo no dia seguinte. O medo do dia da selecção quando, de forma quase arbitrária, os alemães decidiam quem vivia e quem morria. 

 

"A nossa finalidade é chegar à Primavera. Neste momento, nada mais nos preocupa. (...)

Dentro de dois meses, o frio dar-nos-á tréguas e teremos um inimigo a menos."

 

"Quando chegámos erámos novente e seis, nós, os italianos do comboio 164.000;

apenas vinte e nove sobreviveram até Outubro. Destes, oito foram para a selecção.

Agora somos vinte e um e o Inverno começou há pouco tempo.

Quantos chegarão vivos ao novo ano?"

 

Primo Levi, jovem italiano de ascendência judaica e membro da resistência, foi capturado em Dezembro de 1943, com vinte e três anos. Chegou a Auschwitz em Fevereiro de 1944, onde permaneceu até Janeiro de 1945, quando o campo foi libertado. Sobreviveu. Resistiu ao frio, à fome, à fadiga e aos maus tratos. Só não conseguiu manter a alma intacta. E este "só", é tanto. Suicidou-se em 1987, com 67 anos. Elie Wiesel, autor de “A Noite” (também sobre a experiência de horrores vivida num campo de concentração nazi) e prémio Nobel da Paz em 1986, escreveu sobre ele: “Primo Levi não morreu hoje. Morreu há quarenta anos, em Auschwitz.” Podemos dizer que Primo Levi, enquanto escritor, nasceu no campo de concentração, mas como homem, "morreu" lá.

 

"A notícia não provocou dentro de mim alguma emoção directa.

Já há muitos meses que deixara de conhecer a dor, a alegria e o medo."

 

Apesar de ser um livro com menos de 200 páginas, não é uma leitura rápida. Não o foi para mim. Cada parágrafo traz informação que precisei ir digerindo. Há pormenores muito particulares que me fizeram parar a leitura para poder assimilar tudo o que o autor nos quis transmitir. Toda a opinião que aqui der será sempre incompleta sobre tanto que o livro nos traz. É um documento histórico e humano que nos deixou como um legado para que a Humanidade não volte a repetir os mesmos erros.

 

"Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que em Auscshwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem."

 

Levi respondeu à pergunta "Como é que um homem sobrevive em Auschwitz?". No final da leitura, a questão que fica é: Como é que um homem sobrevive depois de Auschwitz?

 

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Este foi o livro de Janeiro do meu projeto Volta ao Mundo em Literatura: 12 meses, 12 países, 12 livros. Começámos em Itália. Em Fevereiro viajamos até à Rússia.  

 

Título: Se isto é um homem

Autor: Primo Levi

Edição: D. Quixote, 2016

Ano de publicação: 1958

 Nº páginas: 183

Volta ao Mundo em Literatura: 12 meses, 12 países, 12 livros

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A ideia é simples: durante 2017 ler um livro por mês que seja de um país diferente do nosso, num desafio de conhecer outras culturas através da literatura. Eu já o faço e sei que muitos já o fazem, mas um incentivo extra nunca fez mal a ninguém. É só escolher 12 países diferentes e toca a andar. Diversificar leituras, ler histórias que nos chegam dos quatro cantos do mundo é o objectivo deste projecto. Viajar para sítios onde nunca fomos através de autores e culturas completamente diferentes da nossa.

 

Hoje partilho a minha escolha dos 12 países, espalhados pelos vários continentes. Escolhi apenas autores que nunca li para cada nacionalidade. No início de cada mês partilho o livro que irá ser lido de cada um. E no final de cada mês será publicada a opinião sobre esse livro. Não é necessariamente esta a ordem de leitura. 

 

Alemanha: Thomas Mann

Angola: Pepetela      

Austrália: Markus Zusak    

Canadá: Alice Munro  

Chile: Isabel Allende

França: Gustave Flaubert

Índia: Aravind Adiga

Itália: Primo Levi

Japão: Haruki Murakami

Nigéria: Chimamanda Ngozi Adichie      

Perú: Mário Vargas Llosa  

Rússia: Fiódor Dostoiévski

 

Para além de Portugal, exlcuí também deste projeto Inglaterra, EUA e Brasil, porque são os autores que mais leio e, como disse, o objetivo é diversificar. Se tiverem sugestões de outros países ou autores serão muito bem-vindas.

 

Quem quiser entrar neste desafio está à vontade para escolher os escritores e os países que quiser. Desde que sejam todos diferentes entre si e que não haja Portugal pelo meio... Vou partilhando os livros e os updates de leituras no Instagram a partir do início do ano. Ansiosa para começar.