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SAY HELLO TO MY BOOKS

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06
Abr17

VIDA | Amizade

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As amizades que temos aos trinta, não são as mesmas que temos aos vinte. Nem nós próprios somos o mesmo tipo de amigos que já fomos. Aos vinte temos muitos amigos. Um grupo grande. Da escola, da faculdade, do bairro onde moramos, do trabalho, o que seja. Muitos amigos para ir a festas, a festivais de verão, ao café, ao shopping, à praia. Andamos sempre acompanhados de vários amigos. Os nossos aniversários são quase casamentos. Perdemos horas ao telefone com eles, porque são muitos. Todos sabem da nossa vida. Não temos grandes problemas, mas inventamo-los. Dramatizamos um namoro que termina, uma amiga que não nos respondeu logo à mensagem, mas também relativizamos o mundo. Nada é pesado o suficiente. Levamos a vida leve e os nossos amigos ajudam-nos nisso. Com eles ao lado é muito mais fácil e que sorte serem tantos. Temos amigos em todo o lado. Conhecemos muitas pessoas e divertimo-nos com a maior parte. Depois vêm os primeiros empregos. Os segundos. Os namoros sérios. O sair de casa dos pais e assumir responsabilidades de contas para pagar. Não podemos ir jantar tantas vezes fora. Festivais de verão já não dá. Só temos duas semanas de férias no verão e são para outras paragens. Praia com eles só aos fins de semana e vão poucos, porque os outros já não têm paciência para as filas da ponte. Vários cansaram-se de discotecas. Os telefonemas diminuem. As mensagens são mais espaçadas. Chegámos aos trinta.

 

Aos trinta há menos amigos. Uns ficaram pelo caminho. Foi duro fazer a transição. Olhar para trás e apercebermo-nos disso. Pessoas que achavámos que iam crescer ao nosso lado, ser nossos amigos quando tivessemos setenta. E afastaram-se, ou afastamo-los, a certa altura. É porque não era para ser. Depois há aqueles que a vida filtrou. Que não entravam dentro do verdadeiro significado da palavra amizade. Que estavam lá para marcar aquele período da nossa vida e nada mais. Deram a sua contribuição à nossa existência e foram à sua vida. Foram importantes nessa altura. Não fazem falta hoje. A vida a andou para a frente. Ficam as recordações e os álbuns de fotografias em discos externos com nomes estranhos. Hoje os convívios são outros. Começar a trabalhar, a ter namoros sérios, o peso da rotina e os horários loucos atrapalham. E afastam. As jantaradas em Lisboa mudam para jantarzinhos em casa de alguém. As noitadas até às 7h da manhã transformam-se em beber um copo e às 2h estar a cair para o lado. A conversa de café é mais séria, adulta, ninguém conta o último boato sobre a Ana que se enrolou com o Manel. Fala-se dos chefes autoritários e das folgas rotativas. Fala-se dos projectos a curto prazo, do carro novo que se quer comprar mas ainda não há dinheiro e da renda da casa que é alta como a merda. E se se fala disso, ainda bem. É sinal que ainda cá estão. Sobreviveram à batalha da mudança para a vida adulta. 

 

Porque há amizades que não resistem ao tempo. Uns mudam-se para outra cidade ou, até, para outro país. Há amizades que não resistem à distância. Há amigos que mudam, como nós mudámos. A forma de pensar, de estar, os gostos até. Crescimento é mudança. Amadurecimento. E às vezes amadurecemos trilhando caminhos diferentes. Tornamo-nos pessoas mais calmas ou mais enérgicas, mais caseiras ou mais viajantes, adoptamos uma vida fit ou somos mais sedentários, deixamos de ter vontade de sair à noite ou andamos sempre em festas. E, muitas vezes, as personalidades deixam de combinar. Nem todos vemos o horizonte com as mesmas cores. Nem todos sentimos a brisa no rosto da mesma maneira. Os anos passaram e a vida de cada um moldou-o de formas tão assimétricas que hoje já não encaixam em nós. Já não nos identificamos com o seu estilo de vida ou a maneira de pensar. Não percebemos como conseguiu votar naquele palerma. Não suportamos que só se queixe e nada faça para mudar. Não aguentamos que só olhe para o seu umbigo. E vamo-nos afastando, porque temos outros sítios e outras pessoas com quem preferimos estar. Vamos adiando aquele jantar combinado há muito, ou aquele café ao fim da tarde para pôr a conversa em dia. Nunca mais vai ficar em dia. As mensagens são menos frequentes. Telefonar já nem tem sentido.  Até que um dia nos apercebemo-nos que não estamos com eles há quatro meses. Que estranho. Há seis meses. Ah mas este fim de semana também não me dá jeito. E o tempo passa. 

 

Também há os que ficam. Os que são essenciais ao nosso bem-estar, aqueles que queremos levar para a vida. Aqueles que, mesmo que se tornem pessoas com as quais não nos identificamos a 100%, estamos ali para eles e eles para nós. Mesmo que tenham emigrado ou que já  tenham três filhos e só falem de bebés. Acompanhamos os desgostos e conquistas. Desabafamos. Ouvimos e somos ouvidos. Pessoas que estão lá com um abraço e uma palavra amiga quando estamos mal. Que, mesmo falando só uma vez por semana, sabemos que estão lá. Pessoas com quem continuamos a ter programas e a divertirmo-nos. Pessoas com quem queremos estar porque é bom. 

 

Depois, quem tem muita, muita sorte, tem aquele amigo. Que é como um irmão de outros pais. Que nos compreende e conhece como ninguém. Que sofre connosco as nossas dores e fica radiante com a nossa felicidade. Aquele amigo que nos adivinha os pensamentos e com quem o silêncio é confortável. Com quem as gargalhas chegam às lágrimas. Com quem tens uma linguagem própria. Aquele com quem te apetece estar, mesmo quando não te apetece estar com ninguém. A quem telefonamos só para contar aquela novidade a meio do intervalo da tarde no trabalho. Com quem trocas diariamente mensagens sobre tudo e mais alguma coisa. De quem sabes pormenores do namoro. De quem conheces de cor a decoração da casa. Aquele amigo que sabes que não gosta de tomate na salada, mas que põe canela em tudo. Aquele amigo que é "casa". Aquele amigo que é a outra metade da tua alma. Porque almas gémeas são os amigos. Aos trinta, ter um amigo assim é ouro. E o nosso coração brilha. E agradece. 

 

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