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SAY HELLO TO MY BOOKS

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Ter | 31.01.17

Diário de Anne Frank, Anne Frank

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Tenho tanto para dizer sobre este livro mas, por outro lado, sinto que nada do que possa dizer é suficiente para descrever tudo o que me fez sentir. Várias vezes durante a leitura, especialmente quando Anne reforçava a esperança e planos que tinha para o futuro, quando a guerra acabasse, fechava os olhos uns instantes e sofria, por saber que esse futuro nunca lhe chegou. O leitor sabe, desde o início, como termina a história. E, por essa razão, toda a leitura tem um gosto amargo. 

 

Li-o a primeira vez com 14 anos. Reli-o agora, com 29, na mesma edição, mas com outros olhos, outra maturidade e outra emoção. Se da primeira vez tentava imaginar o que seria uma adolescente, como eu, viver escondida, isolada e privada da liberdade e dos amigos, enquanto está em constante crescimento e formação, hoje não consigo sequer imaginar o que terão sido aqueles dois anos para ela e todos os que ali viviam. A angústia constante, a incerteza, a fome que nunca é satisfeita e a falta de coisas tão simples como, tomar um banho como deve ser, beber café ou sentir a brisa no rosto. 

 

Acho que todos conhecem a história de Anne e da sua família, judeus de nacionalidade alemã que viviam há vários anos na Holanda. Com o cerco nazi a apertar, escondem-se para evitar a ida para os campos de concentração. Criam artimanhas para que se pense que fugiram para a Suíça e “mergulham” no anexo da empresa onde Otto Frank, pai de Anne, trabalhara, com mais quatro pessoas. Enquanto o escritório tivesse a funcionar durante o dia, não podiam fazer barulho, não podiam usar a casa de banho, ligar a água, falar alto, nada. Alguns dos colegas de Otto tornam-se aliados e protetores deste segredo, levando-lhes comida, livros, roupa, entre outras coisas. Em baixo, os oito moradores do anexo, e na última linha, os quatro protectores. 

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Anne recebe o diário em Junho de 1942, no 13º aniversário, ainda em liberdade. Percebemos que era uma miúda “saída da casca”, extrovertida, sociável, vaidosa, curiosa e desafiadora. Por isso, quando se vê presa, toda essa energia e sede de mundo transformam-se em frustração, momentos de depressão misturados com euforia e uma grande dose de contradição, comum a qualquer adolescente. O problema é que está num espaço limitado com mais sete pessoas com as quais não se identifica. O pai, que adora, a irmã, muito diferente dela, a mãe, com quem tem problemas, o casal “van Dann” (nomes que inventou para proteger a identidade deles) e o filho Peter, uns chatos, e ainda o dentista a quem chama Dussel, com quem divide o quarto e com quem tem variadas discussões. Isso traz-lhe uma grande solidão. Dá respostas tortas aos adultos, é chamada de malcriada, preguiçosa, insolente. Numa idade crucial de formação de personalidade, mentalidade e carácter, Anne está condicionada a nível físico, social e mental. E nós acompanhamos esses conflitos e esse crescimento doloroso. Ainda assim, nunca perde o sentido de humor e somos testemunhas disso em várias passagens do diário. 

 

“Combinámos não abrir as torneiras e não puxar o autoclismo no WC.

Mas como o susto provocou o mesmo efeito em todos nós, podes imaginar o cheirete num certo sitio..."

 

É por se sentir sozinha e incompreendida que o diário ganha uma importância vital, funcionando como uma terapia durante aquele tempo. Dá-lhe o nome de Kitty e escreve como se estivesse a contar o dia-a-dia, as coisas mais simples como as rotinas de almoço e jantar, ou assuntos mais sérios como os avanços da guerra, a uma amiga que mora longe. 

 

"Não tenho uma verdadeira amiga, pois ninguém pode compreender que uma rapariga de treze anos

se sinta só. (...) Não consigo abrir-me, sinto-me como que abotoada. Por tudo isto é que escrevo um diário.

Este diário há-de ser a minha amiga".

  

"Mais tarde, nem eu nem ninguém, achará interesse nos desabafos de uma rapariga de treze anos.

Mas não importa. Apetece-me escrever e quero aliviar o meu coração de todos os pesos".

 

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Anne nunca deixou de estudar. Geografia, Álgebra, História e Línguas. Adorava ver e recortar revistas de cinema. Lia muito e escreveu, além do diário, vários contos naqueles anos.

 

"As pessoas que estão em liberdade e que fazem uma vida normal, não podem calcular

o que significam os livros para gente isolada do mundo exterior".

 

Tinha uma mente avançada para a época, não queria viver só para o marido. Queria viajar, estudar no estrangeiro, ser jornalista e depois escritora. Era culta, interessada e com reflexões profundas sobre o mundo, a alma humana e sobre si própria. Por vezes, senti-me até um pouco culpada por entrar de forma tão intensa no íntimo de uma miúda de 15 anos. Mas em muitos posts conta-nos acontecimentos banais do dia-a-dia. Narra-os como se de histórias literárias se tratassem, com diálogos e pormenores interessantes. O armazém, que ficava em baixo do anexo, foi assaltado diversas vezes naqueles anos. Anne conta esses acontecimentos como se tivesse a escrever ficção. Lia muito, portanto tem uma sensibilidade narrativa grande. Sabe criar picos de tensão e dar peso dramático nos momentos certos. 

 

Anne ensina-nos a manter a sanidade mental, vivendo numa angústia constante. Ensina-nos a encontrar escapes e a manter o bom humor, não deixando que o medo nos consuma. Uma das características de Anne que mais me impressionou, foi a fé inabalável de que tudo ia acabar bem. Nunca perdeu a esperança, sempre acreditou que o fim da guerra ia chegar e que voltariam à vida normal. 

 

"Muitas roupas nossas estão nas casas de outras pessoas, mas só depois da guerra poderemos ir buscá-las".

“A Margot diz que eu talvez já possa voltar à escola em Setembro ou Outubro”.

"Podemos pensar nos vestidos e livros que havemos de comprar."

“O meu desejo é neutralizar-me holandesa depois da guerra”.

 

As várias versões do Diário e a polémica sobre a fraude

Anne fez vários planos para o pós-guerra. Um deles era publicar o seu diário. Assim que ouvi na rádio, em 1944, o governo holandês sugerir que quem tinha diários e escritos sobre aquele período os conservasse pois podiam teriam interesse em ser publicados no futuro, Anne começou a editar o seu próprio diário. Voltou ao início e começou a cortar certas partes e a acrescentar outras. Essa é a versão B. Mais tarde, quando Otto teve acesso ao diário (já depois da guerra, a amiga da familía Miep que o encontrou, devolveu-o ao pai), decidiu publicá-lo, fazendo uma edição minuciosa e omitindo algumas partes que considerava mais privadas, como passagens onde Anne falava da sua sexualidade, por exemplo. Essa é a versão C e a que chega à maior parte das pessoas. Sabe-se também que várias entradas do diário se perderam, principalmente de 1943. Talvez por isso, ou pela maior necessitado de desabafar no último ano, quando já estava saturada daquele local e tinha as ideias mais no sítio, é visível a diferença de número de postagens. Anne escreveu 54 entradas no primeiro ano em que esteve fechada e 110 no segundo, de Julho de 1943 a início de Agosto de 1944.  

Mas nem tudo é o que parece. Durante anos, várias foram as acusações feitas de que teria sido Otto a escrever o diário. Chegou mesmo a ser acusado e ir a julgamento. Diz-se que pegou em alguns apontamentos escritos pela filha e acrescentou muita informação, fabricando o diário na sua maioria. Se pararmos para pensar, não é de todo impossível. Há várias teorias espalhadas pela Internet. Leiam este artigo, vale muito a pena. E se quiserem vejam também este post, como há muitos espalhados por aí. 

 

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Admitindo que foi mesmo a própria a escrevê-lo, um dos pontos mais interessantes do diário é acompanhar o amadurecimento de ideias e reflexões. Com 13 anos já mostrava uma capacidade de análise fora do comum para a idade, mas à medida que o tempo vai passando, assistimos a uma evolução de Anne, tanto que o próprio pai disse em público, mais tarde, não ter ideia da profundidade de sentimentos e pensamentos da filha. Ganha uma maturidade incrível naqueles dois anos. Não só nas reflexões sobre o Mundo e a Humanidade, como na forma de agir com quem a rodeia, na forma como consegue admitir quando erra e é injusta, no amor que ganha pela natureza e as coisas simples da vida. Anne Frank escrevia de forma eloquente, tinha vocabulário alargado, esperteza e sensibilidade para perceber a atmosfera à volta dela. Era muito autocrítica, com instropecções profundas e uma constante procura por aperfeiçoar-se e conhecer-se a si própria. Quantas miúdas de 15 anos têm esta capacidade? Claro que a o isolamento forçado a obrigou a ter uma vida menos agitada do que qualquer adolescente normal, mas ainda assim, Anne era especial. 

 

"Tenho de me aperfeiçoar sozinha, sem exemplo e sem ajuda, só assim hei-de ser um dia forte e resistente".

“Sei o que quero, tenho uma finalidade, uma opinião, tenho fé e amor. Tenho consciência de ser uma mulher com força interior e muita coragem.”

"Não podes, nem deves, considerar-me uma rapariga de catorze anos. A nossa tragédia tem-me envelhecido".

 

Vamos notando também que Anne se torna mais fria. A realidade era dura, as notícias da guerra e da perseguição aos judeus aterradoras, e tudo isso a moldou-a numa época em que ainda estaria a desenhar o seu carácter. Tem noção do bem e do mal, não é hipócrita, diz tudo o que lhe vem à cabeça, mesmo que isso magoe alguém, especialmente a mãe com quem tem uma relação agridoce. Todas as referências sobre a relação são tristes e, ao mesmo tempo, de frontalidade imensa. Anne chega a dizer que não tem sentimentos pela mãe e tem pena disso. "Sou em tudo o contrário da mãe, por isso é inevitável que nos choquemos. (...) Vejo-a apenas como minha mãe. E ela não é para mim a mãe que idealizei".

                                                                                                                  

Sabemos que não é fácil quando várias pessoas são fechadas num espaço pequeno meses e meses a fio. É de levar qualquer um à loucura. Basta vermos o que acontece nos reality shows, onde várias personalidades diferentes em pouco tempo estão a discutir pelos mais pequenos pormenores da vida quotidiana. Naquele anexo, aconteceu a mesma coisa. Não têm muitas distrações, não podem sair para espairecer, não têm novos estímulos. Ao fim de algum tempo dá molho. É assim a natureza humana. 

 

Já no último ano no anexo, Anne apaixona-se por Peter, filho do outro casal do esconderijo, que nada tem a ver com ela. A própria admite que em condições normais de liberdade, não se teria interessado por ele. É aqui que nos lembramos que é apenas uma adolescente, cujo maior medo devia ser levar uma nega do rapaz que gosta ou chumbar num exame da escola. Em vez disso, vive sob a sombra da guerra, num medo e angústia constantes.

 

"Proibimos a Margot, que anda terrivelmente constipada, de tossir de noite". 

"Qualquer pequeno desleixo podia trair-nos."

 

"Aflige-me a ideia de não se poder sair daqui e tenho medo que nos descubram e nos fuzilem".

 

Este não é apenas o diário de uma miúda. É um documento histórico sobre a perseguição aos judeus, a Segunda Guerra Mundial e o que acontece quando a deseumanidade chega ao poder. Anne relata várias vezes as privações e regras que os alemães impuseram aos judeus, como não poder sair à rua depois das 20h, não poder andar de bicicleta nem nos transportes públicos, não poder frequentar teatros e cinema nem praticar qualquer desporto, fazer compras apenas num horários específico, etc. Depois começaram a desaparecer e ouvia-se falar em câmaras de gás, mas ninguém sabia ao certo o que estava a acontecer.

 

"Não poupam ninguém: velhos, crianças, grávidas, doentes...todos têm de entrar na dança da morte.

E nós aqui tão bem guardados. (...) Quando estou deitada na minha cama, tão quente e confortável,

enquanto as minhas amigas sofrem lá fora, talvez expostas ao vento e à chuva, mortas até, sinto-me quase má. (...) ao lembrar-me de que estão entregues aos mais cruéis carrascos que a historia dos homens ja conheceu.

E tudo isto só por serem judeus!". 

 

"E lembrar-me que também já fui alemã! Hitler tirou-nos a nacionalidade há muito! Entre aquela espécie de alemães - os hitlerianos - e os judeus, existe uma inimizade como não pode haver mais forte em todo o mundo." 

 

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Anne tornou-se a voz de todos aqueles que não tiveram tempo de dizer o que pensavam, o que sentiam, que foram levados e mortos sem poder deixar nenhum testemunho.

 

A última entrada do diário, a 1 de Agosto de 1944, três dias antes de serem capturados, Anne escreve algumas das passagens mais pessoais de todo o livro: “Não tenho só uma alma, mas sim duas. Uma dá-me a minha alegria, exuberante, a minha vontade de viver. Esta primeira alma está sempre à espreita e faz tudo para suplantar a outra que é mais bela, mais pura, mais profunda. Essa alma boa da Anne ninguém a conhece. E é por isso que pouca gente gosta de mim. (…) No meu interior, a Anne pura é que me indica o caminho”.

 

 "Goza a tua liberdade enquanto for possível", disse Otto Frank a Anne, em Julho de 1942, antes de terem que se esconder. Eu nasci em liberdade, num país livre sem guerras, nem ditadura. Não sei o que é sentir preconceito e censura na pele. Tenho uma vida privilegiada. Posso sair de casa e passear onde quiser, receber o sol no rosto, a brisa, a chuva. Posso viajar, ir ao cinema, à praia e ao campo. Posso comer o que me apetecer, ler os livros que quiser, tomar banho com privacidade e dormir em paz. Às vezes esquecemo-nos a importância que a liberdade tem. Não a posso tomar como garantida, não sei o dia de amanhã.

 

Anne morreu no início de 1945, no campo de concentração de Bergen-Belsen, poucas semanas antes de ser libertado pelos aliados. Ela e Margot morreram doentes, com tifo, a pensar que os pais tinham também morrido. Relatos de pessoas que sobreviveram e lidaram com ela nos campos, dizem que tinha perdido a vontade de vida. Custa-nos imaginá-la assim, depois de ler o diário. 

 

O destino da Anne Frank faz parte da Historia. Ela ensinou-nos que a vida vale a pena ser vivida, todos os dias. “Não quero ficar insignificante. Quero conquistar o meu lugar no Mundo e trabalhar para a Humanidade”. Ela queria ser lembrada e continuar a viver para além da sua morte. Conseguiste, querida Anne.

 

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Têm todas as imagens, biografias e informação sobre todas as pessoas envolvidas na história, o que lhes aconteceu e pormenores muito interessantes no site oficial: http://www.annefrank.org/pt/ . É um complemento que vale a pena explorar. 

Título: Diário de Anne Frank

Autor: Anne Frank

Edição: Livros do Brasil, 2001

Ano de publicação: 1947

 Nº páginas: 350

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