Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAY HELLO TO MY BOOKS

SAY HELLO TO MY BOOKS

29
Jan17

Se isto é um homem, Primo Levi

_MG_5143(1).JPG 

"...já apagados nas almas antes da morte anónima." 

 

Já li várias opiniões de quem adora este livro e de quem, dentro das obras sobre o Holocausto, não o tem nos preferidos. Percebo porquê. É um livro mais factual, menos emotivo. Primo Levi em nenhum momento deixa de ser objectivo nos factos que nos conta dos meses que viveu em Auschwitz. Não recorre ao drama, a lamentações ou queixumes. Limita-se a contar, de forma nua e crua, como era o dia-a-dia no "Lager", para quem teve a "felicidade" de não ser seleccionado para as câmaras de gás. 

 

"Toquei o fundo. (...) Passados quinze dias da chegada, já sofro da fome regulamentar,

a fome crónica desconhecida dos homens livres (...), o meu próprio corpo já não me pertence:

tenho o ventre inchado e os membros emagrecidos, o rosto inchado de manhã e encovado à noite;

quando ficamos sem nos ver por três ou quatro dias, temos dificuldade em reconhecer-nos". 

 

Gostei muito. Já conhecia alguns factos, outros foram uma descoberta. Não posso deixar de dizer que o meu capítulo preferido é o último, "História de dez dias". Dentro de todo o horror, foi o que mais me impressionou. A resiliência de um grupo de prisioneiros, doentes, fracos, para sobreviver durante mais de uma semana, quando o campo já tinha sido deixado ao abandono pelos alemães, já não havia qualquer tipo de ordem e as condições eram ainda piores do que quando as SS estavam ao comando. É impressionante a força de vontade e o companheirismo que os fez não ficar de braços cruzados à espera da morte, deixando-se subumbir à fome e ao frio. Enquanto lia estas últimas vinte páginas, só me vinha à memória o estado de calamidade da cidade que Saramago descreve no "Ensaio sobre a cegueira". Mas isso era ficção. 

 

"O Lager, acabado de morrer, apresentava-se em decomposição. Já não havia água nem electricidade, janelas e portas escancaradas batiam ao vento, as cinzas do incêndio voavam alto e para longe. Ao efeito das bombas juntava-se o efeito dos homens: esfarrapados, caídos, esqueléticos (...) já incapazes de dominar as suas vísceras, sujaram por todo o lado, poluindo a preciosa neve, única fonte de água agora". 

 

Naquele lugar, os homens deixavam de se sentir homens. Já nada têm dentro deles, a não ser um vazio imenso, olhos inexpressivos, indiferença sobre viver ou morrer, sem cabelo, sem roupa, sem privacidade, sem voz. Sem direito a uma refeição digna, a cuidados médicos decentes, ou mesmo a respostas às mais simples questões. São objetos descartáveis quando deixam de ter utilidade. Os nazis conseguiam, com toda a violência, regras e leis dos campos, desumanizar os homens que ali entravam. 

 

Os relatos de Primo Levi, na primeira pessoa, permitem-nos entrar na rotina do "Lager". A alvorada às 4h da manhã, o trabalho escravo à chuva, à neve e ao vento, rações minímas de comida, a divisão de cama com desconhecidos, o saber roubar para sobreviver, a roupa suja, o pensamento constante de quem não sabe se estará vivo no dia seguinte. O medo do dia da selecção quando, de forma quase arbitrária, os alemães decidiam quem vivia e quem morria. 

 

"A nossa finalidade é chegar à Primavera. Neste momento, nada mais nos preocupa. (...)

Dentro de dois meses, o frio dar-nos-á tréguas e teremos um inimigo a menos."

 

"Quando chegámos erámos novente e seis, nós, os italianos do comboio 164.000;

apenas vinte e nove sobreviveram até Outubro. Destes, oito foram para a selecção.

Agora somos vinte e um e o Inverno começou há pouco tempo.

Quantos chegarão vivos ao novo ano?"

 

Primo Levi, jovem italiano de ascendência judaica e membro da resistência, foi capturado em Dezembro de 1943, com vinte e três anos. Chegou a Auschwitz em Fevereiro de 1944, onde permaneceu até Janeiro de 1945, quando o campo foi libertado. Sobreviveu. Resistiu ao frio, à fome, à fadiga e aos maus tratos. Só não conseguiu manter a alma intacta. E este "só", é tanto. Suicidou-se em 1987, com 67 anos. Elie Wiesel, autor de “A Noite” (também sobre a experiência de horrores vivida num campo de concentração nazi) e prémio Nobel da Paz em 1986, escreveu sobre ele: “Primo Levi não morreu hoje. Morreu há quarenta anos, em Auschwitz.” Podemos dizer que Primo Levi, enquanto escritor, nasceu no campo de concentração, mas como homem, "morreu" lá.

 

"A notícia não provocou dentro de mim alguma emoção directa.

Já há muitos meses que deixara de conhecer a dor, a alegria e o medo."

 

Apesar de ser um livro com menos de 200 páginas, não é uma leitura rápida. Não o foi para mim. Cada parágrafo traz informação que precisei ir digerindo. Há pormenores muito particulares que me fizeram parar a leitura para poder assimilar tudo o que o autor nos quis transmitir. Toda a opinião que aqui der será sempre incompleta sobre tanto que o livro nos traz. É um documento histórico e humano que nos deixou como um legado para que a Humanidade não volte a repetir os mesmos erros.

 

"Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que em Auscshwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem."

 

Levi respondeu à pergunta "Como é que um homem sobrevive em Auschwitz?". No final da leitura, a questão que fica é: Como é que um homem sobrevive depois de Auschwitz?

 

primo-levi-horz.jpg

 

Este foi o livro de Janeiro do meu projeto Volta ao Mundo em Literatura: 12 meses, 12 países, 12 livros. Começámos em Itália. Em Fevereiro viajamos até à Rússia.  

 

Título: Se isto é um homem

Autor: Primo Levi

Edição: D. Quixote, 2016

Ano de publicação: 1958

 Nº páginas: 183

14
Set16

A Amiga Genial, Elena Ferrante

IMG_2946.JPG

 

Fiquei na dúvida que classificação dar a este livro, se 4 ou 5 estrelas, não só por todas as opiniões que ouvi de que os próximos são melhores (então para quê gastar já a nota máxima?), mas porque sinto que me faltou alguma coisa.

 

Já toda a gente sabe que a história é sobre duas amigas. Lenú é a narradora que, no alto dos sessenta anos, decide escrever sobre a sua vida, centrada na amizade que tem com Lila desde a infância. Pelo meio vamos conhecendo o bairro modesto de Nápoles onde cresceram, assim como os seus vizinhos e amigos. Parece simples, não é? Mas é tudo muito mais complexo do que estão à espera. 

 

Achei a primeira parte, sobre a Infância, um bocadinho aborrecida. Percebo que era importante para percebermos o background delas e porque se volta àquela época regularmente para se explicar alguns factos que vão ser essenciais no caminho das personagens. Ainda assim, não me cativou. A segunda parte, sobre a Adolescência, já me envolveu mais, já me consegui relacionar a história, ainda que seja passada nos Anos 60. Mas o final ficou aquém das minhas expectativas. Esperava que houvesse algum acontecimento que me fizesse ficar louca para ler o segundo volume logo a seguir e isso não aconteceu. E por estas razões, dei quatro estrelas e não cinco. Mas gostei bastante e é realmente um livro bom.

 

E o que é para mim um livro bom? Além de bem escrito, com uma história interessante, profunda e credível, são livros que nos fazem sentir. Seja o que for. E este livro fez-me refletir sobre a minha própria infância e adolescência, fez-me recordar tempos de escola e fez-me pensar em amizades que tinha na época. Algumas ainda hoje mantenho, outras nem por isso. Este livro fez-me olhar para a minha evolução e crescimento como pessoa desde a altura em que tinha 15 anos, que olhava para o futuro incerto com ansiedade, ao mesmo tempo que achava que já sabia tudo. Foi uma leitura importante por isso mesmo. Nenhuma, até hoje, me tinha feito viajar a certas recordações que estavam guardadas numa gaveta no fundo da memória e ficar a pensar nelas com o livro pousado no peito.

 

FullSizeRender (9).jpg

 Bem-haja ao índice das personagens no ínicio do livro...era toda uma confusão durante a leitura sem ele. 

 

Mas afinal quem é a Elena Ferrante? Uma autora que não dá a cara, só responde a entrevistas por escrito e diz preferir ser conhecida pelas suas palavras e não pelo seu aspecto. Será que é só por isso mesmo? Sinto que toda a historia é um aglomerado de factos sobre a vida daquele bairro e daquelas duas miúdas. Pensei, várias vezes enquanto lia, que é uma obra autobiográfica, que a autora se sentou a escrever a sua própria história, a história do bairro em que cresceu e de uma grande amizade sua. Que desabafou tudo o que quis naquelas páginas, incluindo alguns pormenores que não aquecem nem arrefecem, romantizando um bocadinho alguns factos. Posso estar enganada. Mas juntamente com o facto de ela não querer revelar a identidade com medo de "virar alvo de hostilidades públicas", essa teoria ganha força.

 

Estou habituada a escrever como se estivesse a repartir um espólio. A uma personagem atribuo uma característica de Fulano, a outra uma frase de Beltrano. Reproduzo situações em que pessoas, que conheço ou conheci, se encontraram de facto, revivo experiências verdadeiras. (...) De modo que aquilo que escrevo está cheio de referências a situações e acontecimentos que realmente se deram, mas que foram reorganizados e recriados como nunca ocorreram.” - Lido, aqui

 

E a questão que se impõe no final da leitura é: Quem é, afinal, "A" amiga genial? A Lila ou a Lenú?

 

aamigagenial.jpg

 (Capas italiana, espanhola, brasileira e norteamericana)

 

E a tradução? Não deve ter sido um trabalho fácil, mas certas palavras e expressões irritaram-me. Não sei como está o original, nem peço que traduzam as obras de forma a simplificarem a sua linguagem a um ponto básico quando não é assim que o autor original escreve. Mas houve palavras utilizadas demasiadas vezes como, por exemplo, “altercação”, quando podiam de vez em quando ter usado sinónimos. A utilização do gerúndio também me incomodou, como “o que ela estava sentindo”, sendo que não estamos a traduzir para brasileiro nem para alentejano. Mas vá, são pormenores e não foi por isso que gostei menos da história. 

 

Título: A Amiga Genial

Autor: Elena Ferrante

Edição: Relógio D'Água, 2014

Ano de publicação: 2011

 Nº páginas: 264